terça-feira, 8 de maio de 2012

FÁBULA: O Jovem Caranguejo

O Jovem Caranguejo

Um jovem caranguejo pensou: "Por que é que na minha família todos andam para trás? Quero aprender a andar para a frente, e que a cauda me caia se eu não conseguir".
Começou a exercitar-se às escondidas, entre os ¹seixos do ²ribeiro natal, e nos primeiros dias a tarefa causou-lhe uma enorme estafa. Chocava contra tudo, machucava a carapaça e atropelava as pernas uma na outra. Mas, a pouco e pouco, as coisas começaram a correr melhor, pois tudo se pode aprender, quando se quer.
Quando se sentia bem seguro de si, apresentou-se à família e disse:
- Vejam isto.
E deu uma magnífica corridinha em frente.
- Meu filho, - desatou a chorar a mãe - deram-te a volta ao miolo? Reconsidera, anda como o teu pai e a tua mãe te ensinaram, anda como os teus irmãos, que te querem tanto.
Os seus irmãos, porém não faziam outra coisa senão troçar.
O pai, depois de ter estado a observá-lo severamente por um bocado, disse:
- Basta. Se queres continuar conosco, anda como os outros caranguejos. Se queres fazer as coisas à tua maneira, o ribeiro é grande: vai-te e nunca mais voltes.
O bravo caranguejinho estimava os seus, mas estava demasiado seguro da sua justiça para ter dúvidas: abraçou a mãe, despediu-se do pai e dos irmãos e partiu ao encontro do mundo.
A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs que, como boas comadres, se haviam reunido para dar dois dedos de conversa em volta de uma folha de ³nenúfar branco.
- O mundo anda às avessas - disse uma rã. - Olhem para aquele caranguejo e digam lá se não tenho razão.
- Já não há respeito - disse uma outra rã.
- 4 Apre! - disse uma terceira.
Mas o caranguejo seguiu em frente, é mesmo caso para dizê-lo, no seu caminho. A certa altura, ouviu chamar por ele: era um velho caranguejo solitário, de expressão melancólica, que se encontrava encostado a um seixo.
- Bom dia - disse o jovem caranguejo.
O velho observou-o prolongadamente, depois disse:
- Onde pensas tu que vais chegar com isso? Também eu, quando era jovem, pensava ensinar os caranguejos a andar para frente. E eis o que recebi em troca: vivo completamente só, as pessoas preferiram cortar a língua a dirigir-me a palavra. Presta atenção ao que te digo, enquanto é tempo: resigna-te a fazer como os outros e um dia agrader-me-ás o conselho.
O jovem caranguejo não sabia o que responder e ficou calado. Mas dentro de si pensava: "Eu tenho razão".
E despedindo-se do velho com gentileza, retomou orgulhosamente o seu caminho.
Irá longe? Fará fortuna? Endireitará todas as coisas tortas deste mundo? Não sabemos, porque ele ainda não parou de caminhar com a coragem e a firmeza do primeiro dia. Apenas lhe podemos desejar de todo o coração:
- Boa viagem!

Gianni Rodari. In: O verso da folha (1993). Tradução Portuguesa
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Vocabulário:
1. Seixos: pedras pequenas; cascalhos.
2. Ribeiro: riacho.
3. Nénufar: planta de folhas e flores flutuantes, que ocorre nos mangues e pântanos da Europa.
4. Apre!: interjeição que exprime raiva, repulsa, desaprovação, desprezo.

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Gianni Rodari nasceu na Itália, em 1920. Foi professor de crianças, poeta, jornalista e escritor. Dedicou às crianças quinze livros. Em 1970, recebeu o Grande Prêmio Internacional Hans Christian, destinado a autores de literatura infantil. Algumas de suas obras: O livro dos porquês, Histórias ao telefone, A gramática da fantasia. Faleceu em Roma, Itália, em 1980.
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ARTIGO: Direito de brincar: as (im)possibilidades no contexto de trabalho infantil produtivo

Indira Caldas Cunha de Oliveira – UFRN
Rosângela Francischini – UFRN


Direito de brincar: as (im)possibilidades no contexto de trabalho infantil produtivo¹

Resumo
Dentre os vários aspectos relacionados à infância,  elegemos o direito da criança brincar, atividade esta considerada importante para o seu desenvolvimento, segundo várias perspectivas teóricas em Psicologia, dentre as quais destacamos a sociohistórica. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho foi investigar como as crianças em situação de trabalho, a partir do seu discurso e de suas práticas, vivenciam o brincar em seu cotidiano. Participaram da pesquisa quatro crianças que desenvolvem atividades no processo de beneficiamento da castanha de cajú. Como procedimentos recorremos à entrevistas semiestruturadas, observação participante e fotografias. A perspectiva de análise fundamenta-se nos estudos sociohistóricos e discursivos. Diante da análise do  cor pus, percebemos que os sujeitos participantes da pesquisa conseguem viver, mesmo que seja de forma parcial, a sua ludicidade. Assim, o trabalho restringe a construção da cultura lúdica dessas crianças, uma vez que o  tempo de que dispõem está comprometido, em grande extensão, com as atividades do beneficiamento da castanha de cajú. 
Palavras-chave: infância; lúdico; trabalho infantil produtivo.


Right to play: the (im)possibilities in the context of productive childish job

Abstract
Among several aspects related to childhood we have chosen the rights of the children to play, which is considered an important activity for their development according to several theoretical perspectives in Psychology, among which we highlight the social-historic approach. In that context, the aim of this work was to investigate from their speech and their practices how children in working situation play in their everyday lives. Four  children participated in the research, developing activities in the process of cashew nuts advantaging. We recurred to interviews, participating observations, and photographs. The perspective of analysis for this work is  based on social-historic and discursive studies. Due to the analysis of the cor pus, we realize that the subjects in the research can live, even in a partial way, its truth. Thus, the work restrains the construction of those children’s culture, because the time they get is damaged largely due to their work on the cashew nuts. 
Keywords: childhood; ludic; productive infant work.

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¹ Psico-USF, v. 14, n. 1, p. 59-70, jan./abr. 2009.
  Este artigo está disponível na íntegra em  www.scielo.br