sexta-feira, 22 de novembro de 2013
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
ARTIGO da socióloga Jacqueline Pitanguy
A Constituição de 1988 foi um marco na história do Brasil
Apesar de que a participação política da mulher brasileira no Congresso Nacional e nas Assembleias ser das mais baixas da América Latina, Jacqueline Pitanguy de Romani acredita que houve um grande avanço no marco normativo a partir da Constituição, a qual estabelece parâmetros de igualdade para homens e mulheres. “No âmbito civil, houve mudanças no código, adaptando-o aos princípios constitucionais. Recentemente, o Senado aprovou a lei que determina igualdade de pagamento a homens e mulheres por igual função. Além disso, existe desde 1996 uma lei de planejamento familiar que garante inclusive o direito à esterilização”. Essas são algumas das ideias da socióloga ao refletir sobre o cenário atual e os avanços ocorridos nos últimos anos, no que compete às políticas públicas em prol das mulheres. A também cientista política, ao receber uma série de perguntas enviadas por e-mail, preferiu respondê-las resumidamente em cinco tópicos. E enviou à IHU On-Line o texto a seguir.
Jacqueline Pitanguy de Romani é socióloga e cientista política. De 1986 a 1989, indicada pelo então presidente da República, ocupou o cargo de Presidente do Conselho Nacional de Direitos da Mulher – CNDM, com o mandato de propor, acompanhar e desenvolver políticas públicas com perspectiva de gênero, visando melhorar a situação da mulher no Brasil. Nesse sentido, o CNDM desenvolveu programas nas áreas de Saúde Reprodutiva, Violência, Legislação, Cultura, Educação, Trabalho, Mulher Negra e Mulher Rural.
Confira o artigo.
[OBS.: ESTA ATIVIDADE PODERÁ SER UTILIZADA NAS TURMAS DO 2º E 3º ANOS.]
Apesar de que a participação política da mulher brasileira no Congresso Nacional e nas Assembleias ser das mais baixas da América Latina, Jacqueline Pitanguy de Romani acredita que houve um grande avanço no marco normativo a partir da Constituição, a qual estabelece parâmetros de igualdade para homens e mulheres. “No âmbito civil, houve mudanças no código, adaptando-o aos princípios constitucionais. Recentemente, o Senado aprovou a lei que determina igualdade de pagamento a homens e mulheres por igual função. Além disso, existe desde 1996 uma lei de planejamento familiar que garante inclusive o direito à esterilização”. Essas são algumas das ideias da socióloga ao refletir sobre o cenário atual e os avanços ocorridos nos últimos anos, no que compete às políticas públicas em prol das mulheres. A também cientista política, ao receber uma série de perguntas enviadas por e-mail, preferiu respondê-las resumidamente em cinco tópicos. E enviou à IHU On-Line o texto a seguir.
Jacqueline Pitanguy de Romani é socióloga e cientista política. De 1986 a 1989, indicada pelo então presidente da República, ocupou o cargo de Presidente do Conselho Nacional de Direitos da Mulher – CNDM, com o mandato de propor, acompanhar e desenvolver políticas públicas com perspectiva de gênero, visando melhorar a situação da mulher no Brasil. Nesse sentido, o CNDM desenvolveu programas nas áreas de Saúde Reprodutiva, Violência, Legislação, Cultura, Educação, Trabalho, Mulher Negra e Mulher Rural.
Confira o artigo.
[OBS.: ESTA ATIVIDADE PODERÁ SER UTILIZADA NAS TURMAS DO 2º E 3º ANOS.]
ENTREVISTA com o jurista Adriano Pilatti
"A Constituição de 1988 ainda não esgotou seu potencial de liberação da vida e de promoção da igualdade". Entrevista especial com Adriano Pilatti.
Assessor parlamentar durante a Assembleia Constituinte, Adriano Pilatti, professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro — PUC-Rio, comenta os desafios na articulação do diálogo entre mais de 500 parlamentares, juntamente com a sociedade civil. A elaboração do Regimento Interno foi determinante para garantir a dinâmica de trabalho. “A tônica da discussão do Regimento, que tomou mais de dois meses, foi justamente a garantia dessa participação.
O modo encontrado foi o sistema de 24 subcomissões temáticas, agrupadas três a três em oito comissões temáticas, cujos anteprojetos seriam unificados pela Comissão de Sistematização no Projeto de Constituição a ser votado por todo o Plenário. Com isto, cada parlamentar teve participação efetiva como titular em uma subcomissão e na respectiva comissão”, explica Pilatti, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Tal solução favoreceu, de saída, a agenda progressista, pois predefiniu os conteúdos que deveriam necessariamente constar do novo texto — reforma agrária, terras indígenas, comunicação social, etc. —, beneficiando a concepção progressista de uma Constituição ‘analítica’ ou ‘dirigente’, ao contrário do que desejavam os conservadores na defesa de uma Constituição ‘sintética’, que não tratasse de temas sociais, minorias”, complementa.
Apesar da reabertura política garantida pela Constituição, o período de transição foi lento e gradual, sendo que, nos primeiros governos, segundo o professor, o país seguiu mais alinhado a uma perspectiva conservadora. “Politicamente, o confronto entre progressistas e conservadores, a que se sobrepôs o conflito entre governistas e oposicionistas. Sedento por um mandato de cinco anos, o presidente Sarney acabou por fazer ‘dobradinha’ com o conservadorismo, o que não lhe foi difícil, pois era um de seus representantes. Além disso, naquele momento de transição, havia a pretensão tutelar dos ministros militares: naquela época não havia um Ministério da Defesa, cada força armada tinha o seu ministro, além dos ministros-chefes do Estado Maior das Forças Armadas, do Gabinete Militar e do famigerado Serviço Nacional de Informações (SNI), ainda existente”, avalia.
Adriano Pilatti é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ, mestre em Ciências Jurídicas pela PUC-Rio e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro — Iuperj, com Pós-Doutorado em Direito Público Romano pela Universidade de Roma I — La Sapienza. Foi assessor parlamentar da Câmara dos Deputados junto à Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Traduziu o livro Poder Constituinte — Ensaio sobre as Alternativas da Modernidade, de Antonio Negri (Rio de Janeiro: DP&A, 2002). É autor do livro A Constituinte de 1987-1988 — Progressistas, Conservadores, Ordem Econômica e Regras do Jogo(Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008).
Para ler a entrevista, clique aqui.
[OBS.: ESTA ATIVIDADE PODERÁ SER UTILIZADA NAS TURMAS DO 2º E 3º ANOS.]
O modo encontrado foi o sistema de 24 subcomissões temáticas, agrupadas três a três em oito comissões temáticas, cujos anteprojetos seriam unificados pela Comissão de Sistematização no Projeto de Constituição a ser votado por todo o Plenário. Com isto, cada parlamentar teve participação efetiva como titular em uma subcomissão e na respectiva comissão”, explica Pilatti, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Tal solução favoreceu, de saída, a agenda progressista, pois predefiniu os conteúdos que deveriam necessariamente constar do novo texto — reforma agrária, terras indígenas, comunicação social, etc. —, beneficiando a concepção progressista de uma Constituição ‘analítica’ ou ‘dirigente’, ao contrário do que desejavam os conservadores na defesa de uma Constituição ‘sintética’, que não tratasse de temas sociais, minorias”, complementa.
Apesar da reabertura política garantida pela Constituição, o período de transição foi lento e gradual, sendo que, nos primeiros governos, segundo o professor, o país seguiu mais alinhado a uma perspectiva conservadora. “Politicamente, o confronto entre progressistas e conservadores, a que se sobrepôs o conflito entre governistas e oposicionistas. Sedento por um mandato de cinco anos, o presidente Sarney acabou por fazer ‘dobradinha’ com o conservadorismo, o que não lhe foi difícil, pois era um de seus representantes. Além disso, naquele momento de transição, havia a pretensão tutelar dos ministros militares: naquela época não havia um Ministério da Defesa, cada força armada tinha o seu ministro, além dos ministros-chefes do Estado Maior das Forças Armadas, do Gabinete Militar e do famigerado Serviço Nacional de Informações (SNI), ainda existente”, avalia.
Adriano Pilatti é graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro — UFRJ, mestre em Ciências Jurídicas pela PUC-Rio e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro — Iuperj, com Pós-Doutorado em Direito Público Romano pela Universidade de Roma I — La Sapienza. Foi assessor parlamentar da Câmara dos Deputados junto à Assembleia Nacional Constituinte de 1988. Traduziu o livro Poder Constituinte — Ensaio sobre as Alternativas da Modernidade, de Antonio Negri (Rio de Janeiro: DP&A, 2002). É autor do livro A Constituinte de 1987-1988 — Progressistas, Conservadores, Ordem Econômica e Regras do Jogo(Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008).
Para ler a entrevista, clique aqui.
[OBS.: ESTA ATIVIDADE PODERÁ SER UTILIZADA NAS TURMAS DO 2º E 3º ANOS.]
ENTREVISTA com o sociólogo Ivo Lesbaupin
Reforma política: democracia brasileira é limitada e não garante a soberania popular. Entrevista especial com Ivo Lesbaupin
“Não há contradição entre as duas propostas de Reforma Política, a da iniciativa popular e a do plebiscito popular, porque ambas têm como objetivo uma reforma radical do sistema político, na direção da criação de condições para uma verdadeira democracia”, avalia Ivo Lesbaupin, em entrevista concedida à IHU On-Line. Apesar de a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político insistir no debate acerca da reforma há mais de dez anos, foi somente a partir das manifestações de junho que “sentiu-se necessidade de organizar um consenso em torno de uma proposta comum”, contextualiza o sociólogo.
Na entrevista a seguir, Lesbaupin explica as duas propostas de Reforma Política, e enfatiza que a “iniciativa popular pretende começar a influenciar desde já o Congresso, para tentar fazer valer as mudanças já para a próxima eleição, ou, se não for votada até outubro, para servir de pressão sobre os parlamentares”. Enquanto isso, frisa, a proposta de um plebiscito popular “considera que uma reforma com o alcance pretendido só poderia ser realizada através de uma assembleia constituinte exclusiva, não por este Congresso”.
Ivo Lesbaupin é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Graduado em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, é mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ e doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França. É autor e organizador de diversos livros, entre os quais Igreja: comunidade e massa (São Paulo: Paulinas, 1996); e O desmonte da nação: balanço do governo FHC (Petrópolis: Vozes, 1999).
Na entrevista a seguir, Lesbaupin explica as duas propostas de Reforma Política, e enfatiza que a “iniciativa popular pretende começar a influenciar desde já o Congresso, para tentar fazer valer as mudanças já para a próxima eleição, ou, se não for votada até outubro, para servir de pressão sobre os parlamentares”. Enquanto isso, frisa, a proposta de um plebiscito popular “considera que uma reforma com o alcance pretendido só poderia ser realizada através de uma assembleia constituinte exclusiva, não por este Congresso”.
Ivo Lesbaupin é professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Graduado em Filosofia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, é mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ e doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França. É autor e organizador de diversos livros, entre os quais Igreja: comunidade e massa (São Paulo: Paulinas, 1996); e O desmonte da nação: balanço do governo FHC (Petrópolis: Vozes, 1999).
Para ler a entrevista com o sociólogo Ivo Lesbaupin, clique aqui.
[Obs.: atividade destinada aos alunos das turmas do 3º ano.]
[Obs.: atividade destinada aos alunos das turmas do 3º ano.]
ENTREVISTA com o jornalista Eugênio Bucci
As manifestações de 2013. "O impasse da ordem das linguagens da temporalidade." Entrevista especial com Eugênio Bucci
Compreender as manifestações que iniciaram em junho no Brasil, e que permanecem com menos vigor dois meses depois, requer “um fio de interpretação”, diz o jornalista Eugênio Bucci à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone. Para ele, a compreensão deste fenômeno está na “ordem das linguagens”, ou seja, “não há um denominador comum, uma categoria única em todos esses protestos. Eles se parecem muito na forma, mas são muito diversos nos conteúdos”. Por um lado, acentua, há a presença de “pitboys”, sem nenhuma formação cultura e, por outro, “reivindicações mais socializantes, mais de esquerda, de tal maneira que o corte político ou ideológico não explica bem o que acontece”.
Na interpretação do jornalista, a linguagem das manifestações aponta “para uma incapacidade do aparelho do Estado e da administração pública de responder no tempo devido e com a eficiência necessária às demandas sociais”. E explica: “Como o Estado, em diversos países, parece não dispor de mecanismos de fluxos capazes de receber, processar e responder reclamos sociais, ele se enrijece, envelhece rapidamente, e a dinâmica da vida social entra em confronto com ele. Trata-se de um confronto de formas, não de conteúdo”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Bucci comenta a ação dos Black Blocs, e ressalta que, independente da opinião acerca dos atos anarquistas, é fundamental “entender por que isso acontece, como acontece, e o que tais ações querem nos dizer. (...) Quando digo que existe um sentido social com essa ‘quebradeira’, as pessoas consideram que estou apoiando a ‘quebradeira’. Não estou apoiando, mas estou preocupado em entender o que isso quer dizer”.
Eugênio Bucci é professor doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP, e diretor do curso de Pós-Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial da Escola Superior de Propaganda e Marketing - ESPM. Escreve quinzenalmente no jornal O Estado de S. Paulo, e também é colunista quinzenal daRevista Época.
Compreender as manifestações que iniciaram em junho no Brasil, e que permanecem com menos vigor dois meses depois, requer “um fio de interpretação”, diz o jornalista Eugênio Bucci à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone. Para ele, a compreensão deste fenômeno está na “ordem das linguagens”, ou seja, “não há um denominador comum, uma categoria única em todos esses protestos. Eles se parecem muito na forma, mas são muito diversos nos conteúdos”. Por um lado, acentua, há a presença de “pitboys”, sem nenhuma formação cultura e, por outro, “reivindicações mais socializantes, mais de esquerda, de tal maneira que o corte político ou ideológico não explica bem o que acontece”.
Na interpretação do jornalista, a linguagem das manifestações aponta “para uma incapacidade do aparelho do Estado e da administração pública de responder no tempo devido e com a eficiência necessária às demandas sociais”. E explica: “Como o Estado, em diversos países, parece não dispor de mecanismos de fluxos capazes de receber, processar e responder reclamos sociais, ele se enrijece, envelhece rapidamente, e a dinâmica da vida social entra em confronto com ele. Trata-se de um confronto de formas, não de conteúdo”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Bucci comenta a ação dos Black Blocs, e ressalta que, independente da opinião acerca dos atos anarquistas, é fundamental “entender por que isso acontece, como acontece, e o que tais ações querem nos dizer. (...) Quando digo que existe um sentido social com essa ‘quebradeira’, as pessoas consideram que estou apoiando a ‘quebradeira’. Não estou apoiando, mas estou preocupado em entender o que isso quer dizer”.
Eugênio Bucci é professor doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP, e diretor do curso de Pós-Graduação em Jornalismo com Ênfase em Direção Editorial da Escola Superior de Propaganda e Marketing - ESPM. Escreve quinzenalmente no jornal O Estado de S. Paulo, e também é colunista quinzenal daRevista Época.
Para ler a entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos clique aqui.
[Obs.: atividade destinada aos alunos das turmas do 3º ano.]
[Obs.: atividade destinada aos alunos das turmas do 3º ano.]
terça-feira, 12 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Movimentos sociais: breve definição
Em linhas gerais, o conceito de movimento social se refere à ação coletiva de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por meio do embate político, conforme seus valores e ideologias dentro de uma determinada sociedade e de um contexto específicos, permeados por tensões sociais. Podem objetivar a mudança, a transição ou mesmo a revolução de uma realidade hostil a certo grupo ou classe social. Seja a luta por um algum ideal, seja pelo questionamento de uma determinada realidade que se caracterize como algo impeditivo da realização dos anseios deste movimento, este último constrói uma identidade para a luta e defesa de seus interesses. Torna-se porta-voz de um grupo de pessoas que se encontra numa mesma situação, seja social, econômica, política, religiosa, entre outras. Gianfranco Pasquino em sua contribuição ao Dicionário de Política (2004) organizado por ele e por Norberto Bobbio e Nicolau Mateucci, afirma que os movimentos sociais constituem tentativas – pautadas em valores comuns àqueles que compõem o grupo – de definir formas de ação social para se alcançar determinados resultados.
Por outro lado, conforme aponta Alain Touraine, Em defesa da Sociologia (1976), para se compreender os movimentos sociais, mais do que pensar em valores e crenças comuns para a ação social coletiva, seria necessário considerar as estruturas sociais nas quais os movimentos se manifestam. Cada sociedade ou estrutura social teria como cenário um contexto histórico (ou historicidades) no qual, assim como também apontava Karl Marx, estaria posto um conflito entre classes, terreno das relações sociais, a depender dos modelos culturais, políticos e sociais. Assim, os movimentos sociais fariam explodir os conflitos já postos pela estrutura social geradora por si só da contradição entre as classes, sendo uma ferramenta fundamental para a ação com fins de intervenção e mudança daquela mesma estrutura.
Dessa forma, para além das instituições democráticas como os partidos, as eleições e o parlamento, a existência dos movimentos sociais é de fundamental importância para a sociedade civil enquanto meio de manifestação e reivindicação. Podemos citar como alguns exemplos de movimentos o da causa operária, o movimento negro (contra racismo e segregação racial), o movimento estudantil, o movimento de trabalhadores do campo, movimento feminista, movimentos ambientalistas, da luta contra a homofobia, separatistas, movimentos marxista, socialista, comunista, entre outros. Alguns destes movimentos possuem atuação centralizada em algumas regiões (como no caso de movimentos separatistas na Europa). Outros, porém, com a expansão do processo de globalização (tanto do ponto de vista econômico como cultural) e disseminação de meios de comunicação e veiculação da informação, rompem fronteiras geográficas em razão da natureza de suas causas, ganhando adeptos por todo o mundo, a exemplo do Greenpeace, movimento ambientalista de forte atuação internacional.
A existência de um movimento social requer uma organização muito bem desenvolvida, o que demanda a mobilização de recursos e pessoas muito engajadas. Os movimentos sociais não se limitam a manifestações públicas esporádicas, mas trata-se de organizações que sistematicamente atuam para alcançar seus objetivos políticos, o que significa haver uma luta constante e em longo prazo dependendo da natureza da causa. Em outras palavras, os movimentos sociais possuem uma ação organizada de caráter permanente por uma determinada bandeira.
[Fonte: brasilescola.com ]
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Inteligência Coletiva: os saberes em rede e suas consequências positivas, na visão de Pierre Lévy
Virtualização dos saberes
Na discussão sobre se o virtual é real, Pierre Lévy defende que a interação e troca do conhecimento, propiciados pela Cibercultura, possibilita ao homem participar de uma "inteligência coletiva", que funcionará como instrumento para resgatar a sua subjetividade
por Renato Nunes Bittencourt (*)
O advento das tecnologias eletrônicas na Cultura contemporânea conduz a uma frutífera reflexão sobre a questão da virtualização dos saberes, circunstância própria da era informática na qual, de uma maneira geral, estamos todos inseridos. Certamente, jamais encontramos tanta facilidade para a divulgação imediata de conteúdos tal como atualmente existe no sistema informático, circunstância que, interpretada por um viés otimista, representa uma democratização do processo de criação intelectual e sua consequente difusão pública. Nessas condições, Pierre Lévy a rma: "As atividades de pesquisa, de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou comandadas pela economia virtual. O ciberespaço será o epicentro do mercado, o lugar da criação e da aquisição de conhecimentos, o principal meio da comunicação e da vida social".
A "Cibercultura" é um termo utilizado na definição dos agenciamentos sociais das comunidades no espaço eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e popularizando a utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação, possibilitando assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. Este termo se relaciona diretamente com as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e filosóficas dos indivíduos conectados em rede, bem como a tentativa de englobar os desdobramentos que este comportamento requisita.
A ANÁLISE GENEALÓGICA DO CONCEITO FILOSÓFICO DE VIRTUAL NOS REMETE A ARISTÓTELES, QUE ESTABELECE A CÉLEBRE DISTINÇÃO ENTRE ATO E POTÊNCIA
Uma análise genealógica do conceito filosófico de virtual nos remete diretamente a Aristóteles, que estabelece a célebre distinção entre ato, aquilo que está efetivamente realizado, e potência, aquilo que virá a ser e que existe em nível intensivo: "O que não tem potência de ser não pode existir em parte alguma, enquanto tudo o que tem potência pode também não existir em ato. Portanto, o que tem potência para ser pode ser e também pode não ser: a mesma coisa tem possibilidade de ser e de não ser".
A base ontológica da Internet se sustenta pela qualidade do virtual, conceito problematizado na Filosofia Contemporânea, em especial por Gilles Deleuze e por Pierre Lévy, que segue nesse quesito os parâmetros intelectuais delineados por aquele. É importante destacar que, para a consciência irrefletida do senso comum, o virtual representaria algo próprio do irreal, quiçá inexistente de fato. Todavia, tal perspectiva não corresponde ao significado filosófico de virtual: algo que existe sem possuir, todavia, concretude, caráter palpável, encontrando-se assim em estado de potência; o virtual ainda não é de fato, atual, mas poderá vir a ser; assim sendo, o virtual de alguma maneira já existe, ainda que em uma dimensão não concreta. Conforme argumenta Deleuze, "O virtual não se opõe ao real, mas apenas ao atual. O virtual possui uma plena realidade como virtual [...] O virtual deve ser de nido como uma parte própria do objeto real - como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva".
O virtual se caracteriza pela intensidade. A potência do virtual reside na sua fonte indefinida de atualizações, circunstância que transcende as naturais limitações espaço- temporais tal como existentes nos processos difusores comuns. Decorre desse contexto a assimilação do conceito de virtual pelo jogo de linguagem da Informática, ela mesma um modelo de discurso epistemológico que trouxe para o âmbito do pensamento humano a reflexão sobre a possibilidade de um meio desprovido de extensão fornecer aos seus usuários uma possibilidade de trocas constante de conteúdos informativos. Pierre Lévy afirma que "Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão). [...] É virtual toda entidade "desterritorializada", capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela presa a um lugar ou tempo em particular". Um meio virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital.
ENTRE DOIS MUNDOS
O virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no cotidiano; é, na verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos como "real" por meio de instâncias imateriais, justamente pelo fato de não depender de bases concretas para se desenvolver: "O virtual não "substitui" o "real", ele multiplica as oportunidades para atualizá-lo". Nessas condições, torna-se claro que em cada momento de nossas existências e experiências nos encontramos plenamente delineados pela condição virtual: "O mundo humano é "virtual" desde a origem, mesmo antes das tecnologias digitais, porque contém por todo o lado sementes do futuro, possibilidades inexploradas, formas por nascer que a nossa atenção, os nossos pensamentos, as nossas percepções, os nossos atos e as nossas invenções não param de atualizar".
O desenvolvimento das tecnologias informáticas, considerada em uma dimensão intelectual, expressaria a culminação da experiência da "pós-modernidade", caracterizada pela contraposição aos discursos totalizantes e às narrativas teleológicas (progresso contínuo da humanidade, ação soteriológica do saber científico) próprias da era moderna. A exaustão desse projeto civilizatório conduziu, no plano da construção social do conhecimento, a uma valorização das diferenças e a necessidade de inclusão antropológica dos grupos até então relegados aos con ns periféricos da criação intelectual. Obviamente que as facilidades técnicas proporcionadas pelo advento da informática dinamizaram a produção dos saberes e sua subsequente comunicação, inclusive por indivíduos alheios ao mundo acadêmico. Conforme destacado pelo lósofo francês Jean-François Lyotard, "É razoável pensar que a multiplicação de máquinas informacionais afeta e afetaria a circulação dos conhecimentos, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, das imagens (Mídia) o fez".
A expansão da informática e sua culminação epistemológica pela Internet possibilitaram o desenvolvimento de um sistema colaborativo entre os indivíduos separados espaço-temporalmente em decorrência das condições físicas da própria condição concreta da existência, mas virtualmente uni cados pela grande rede: "Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem a sua bem distinta identidade em favor de redes contínuas de produção de informações"
Os recursos interativos disponíveis antes do advento da Internet se fundamentavam tecnicamente nos padrões "Um-Um" (telefone) e "Um-Todos" (televisão, rádio, jornal). A propagação da Internet faz com que alcançamos assim o estado comunicativo denominado por Pierre Lévy de "Todos-Todos", caracterizado por promover a interação plena de informações entre todos os usuários, sujeitos criadores, conectados na rede virtual. A disposição informativa "Todos-Todos" promove a interação mútua de informações entre todos aqueles que se encontram conectados na rede virtual, pois que, conforme vimos anteriormente, esse meio elimina as barreiras das categorias do espaço e do tempo.
A mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de receptores separados entre si fisicamente. Esse processo comunicativo é o único que torna os usuários centros ativos da construção dos modelos de contato interpessoal. Cada um de nós pode perfeitamente fazer parte desse processo de construção coletiva de conhecimentos a ser compartilhado publicamente no Ciberespaço, dimensão virtual na qual ocorrem as interações informativas entre as pessoas, sem que, todavia, exista uma definição nítida do espaço e do tempo no qual se dão tais acontecimentos. A partir da expansão da Internet, a possibilidade de haver uma maior comunhão dos conhecimentos elaborados alcançou um nível jamais imaginado até então pelas estruturas epistemológicas das eras precedentes. Todavia, há uma curiosa tendência a se dizer que a Internet consumou o esvaziamento das relações pessoais. Será que é mesmo a Internet a motivadora por excelência da separação afetiva entre as pessoas? Ou não seria talvez o ritmo vertiginoso das relações de trabalho, os inúmeros problemas de infraestrutura da sociedade contemporânea que motivam esse distanciamento interpessoal?
Na era informática, a construção antropológica do saber se torna uma experiência multilateral, e não mais unilateral, conforme os princípios dogmáticos da instituição teológica normativa (sectária do argumento de autoridade), ou bilateral, disposição característica da relação dialógica; desse modo, todos os sujeitos devidamente conectados na rede eletrônica tornam-se difusores de conceitos, informações, saberes. Pierre Lévy denomina essa experiência holística de "inteligência coletiva", pois a Internet depende, para o seu contínuo progresso, da atividade plena dos seus usuários, que elaboram de maneira interativa os conteúdos disponibilizados na rede virtual: "O problema da inteligência coletiva é descobrir ou inventar um além da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído e coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais separados, mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas as atividades humanas, volte às mãos de cada um". A finalidade da inteligência coletiva consiste em colocar os recursos das grandes coletividades ao serviço das pessoas e dos pequenos grupos, e não o contrário. Tanto melhor, ela engendra uma mobilização otimizada das competências criativas dos indivíduos: "Longe de fundar as inteligências individuais em uma espécie de magma indistinto, a inteligência coletiva é um processo de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca das singularidades".
LÉVY DENOMINA "INTELIGÊNCIA COLETIVA" A EXPERIÊNCIA DA ATIVIDADE PLENA DOS USUÁRIOS, QUE ELABORAM DE MANEIRA INTERATIVA OS CONTEÚDOS DA REDE
Trata-se do deslocamento de um sistema em que o emissor produz um discurso, enviando-o em seguida para um grupo de receptores para uma estrutura de comunicação multidirecional, onde não está de nido quem são os emissores e os receptores. O filósofo polonês Adam Schaff postulava que a sociedade informática permitirá a formação do homem universal, no sentido de sua formação global, que lhe permitirá fugir do estreito caminho da especialização unilateral e não de se libertar do enclausuramento numa cultura nacional - para converter-se em um cidadão do mundo no melhor sentido do termo.
O jogo de linguagem da Internet exige do usuário uma transformação em seus paradigmas intelectuais, sustentados tradicionalmente por uma adequação a um modelo epistemológico de caráter centralizador próprio da con figuração ideológica da Cultura ocidental, marcada pelo respeito cego ao argumento de autoridade e aos discursos universalistas próprios da tradição ocidental. Contudo, o advento das redes informáticas originou a divisão in nita da subjetividade humana e seus dispositivos intelectuais. Nesse contexto, o sociólogo espanhol Manuel Castells pondera que "A elasticidade da Internet a torna particularmente suscetível a intensificar as tendências contraditórias presentes em nosso mundo. Nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos compreender se quisermos mudar nossa sociedade". A estrutura da comunicação em rede aponta para desdobramentos otimistas no que se refere ao processo de democratização do sistema de comunicação e de interação. Para Pierre Lévy, "O uso socialmente mais rico da informática comunicacional consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma democracia em tempo real".
REORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS
Arquivos imensuráveis, a partir do uso do aparato informatizado, são substituídos por recursos especializados virtuais que substituem, a nível quantitativo, o grande espaço físico destinado ao armazenamento de informações, enquanto que, numa dimensão qualitativa, esses dados podem ser organizados de modo extremamente meticuloso, evitando-se assim os transtornos que ocorrem comumente com os arquivos materiais, tais como danificação dos conteúdos pela ação do tempo ou perdas irreparáveis desses suportes físicos. Pierre Lévy conclama para que nos "Lembremos que uma das principais virtudes de tecnologias intelectuais consiste em oferecer ao sistema cognitivo humano memória externa e sistemas de representação próprios para aliviar a tarefa de sua memória a curto prazo e facilitar a concentração de sua atenção aos elementos mais pensamentos de um problema em dado instante".
Nicholas Negroponte, fundador do celebérrimo MIT, em um comentário preciso, destaca que a Internet oferece um novo veículo para se sair em busca de conhecimento e sentidos. Por conseguinte, a Internet, possibilitando a comunicação global, a fusão intelectual entre emissores e receptores e o estabelecimento da interatividade virtual se estabelece em nossa era como um grande marco epistemológico. Desde as suas origens, a escritura foi concebida e utilizada sob forma de signos relativamente estáticos sobre um suporte físico. Hoje, graças às telas interativas, a informática abre possibilidades radicalmente novas à expressividade do pensamento. Tal como destacado por Nicholas Negroponte: "A superestrada da informação nada mais é do que o movimento global de bits sem peso à velocidade da luz". Nessas condições, os discursos contestadores da pertinência da realidade virtual para a vida humana acabam sendo derrotados pela incompreensão da própria natureza do processo de instauração dos conteúdos informáticos da Internet, talvez pelo fato de que esta, por não existir de forma concreta, extensiva, dê a impressão de que apenas lida com ilusões.
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(*) Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ, professor do Curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA, da Faculdade de Flama e do Departamento de Filosofia do Colégio Pedro II e Membro do Grupo de Pesquisa Spinoza & Nietzsche.
Artigo publicado na Revista Filosofia, ed. nº 68, Março 2012
Formato digital disponível em portalcienciaevida.com.br
Na discussão sobre se o virtual é real, Pierre Lévy defende que a interação e troca do conhecimento, propiciados pela Cibercultura, possibilita ao homem participar de uma "inteligência coletiva", que funcionará como instrumento para resgatar a sua subjetividade
por Renato Nunes Bittencourt (*)
O advento das tecnologias eletrônicas na Cultura contemporânea conduz a uma frutífera reflexão sobre a questão da virtualização dos saberes, circunstância própria da era informática na qual, de uma maneira geral, estamos todos inseridos. Certamente, jamais encontramos tanta facilidade para a divulgação imediata de conteúdos tal como atualmente existe no sistema informático, circunstância que, interpretada por um viés otimista, representa uma democratização do processo de criação intelectual e sua consequente difusão pública. Nessas condições, Pierre Lévy a rma: "As atividades de pesquisa, de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou comandadas pela economia virtual. O ciberespaço será o epicentro do mercado, o lugar da criação e da aquisição de conhecimentos, o principal meio da comunicação e da vida social".
A "Cibercultura" é um termo utilizado na definição dos agenciamentos sociais das comunidades no espaço eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e popularizando a utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação, possibilitando assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. Este termo se relaciona diretamente com as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e filosóficas dos indivíduos conectados em rede, bem como a tentativa de englobar os desdobramentos que este comportamento requisita.
A ANÁLISE GENEALÓGICA DO CONCEITO FILOSÓFICO DE VIRTUAL NOS REMETE A ARISTÓTELES, QUE ESTABELECE A CÉLEBRE DISTINÇÃO ENTRE ATO E POTÊNCIA
Uma análise genealógica do conceito filosófico de virtual nos remete diretamente a Aristóteles, que estabelece a célebre distinção entre ato, aquilo que está efetivamente realizado, e potência, aquilo que virá a ser e que existe em nível intensivo: "O que não tem potência de ser não pode existir em parte alguma, enquanto tudo o que tem potência pode também não existir em ato. Portanto, o que tem potência para ser pode ser e também pode não ser: a mesma coisa tem possibilidade de ser e de não ser".
A base ontológica da Internet se sustenta pela qualidade do virtual, conceito problematizado na Filosofia Contemporânea, em especial por Gilles Deleuze e por Pierre Lévy, que segue nesse quesito os parâmetros intelectuais delineados por aquele. É importante destacar que, para a consciência irrefletida do senso comum, o virtual representaria algo próprio do irreal, quiçá inexistente de fato. Todavia, tal perspectiva não corresponde ao significado filosófico de virtual: algo que existe sem possuir, todavia, concretude, caráter palpável, encontrando-se assim em estado de potência; o virtual ainda não é de fato, atual, mas poderá vir a ser; assim sendo, o virtual de alguma maneira já existe, ainda que em uma dimensão não concreta. Conforme argumenta Deleuze, "O virtual não se opõe ao real, mas apenas ao atual. O virtual possui uma plena realidade como virtual [...] O virtual deve ser de nido como uma parte própria do objeto real - como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva".
O virtual se caracteriza pela intensidade. A potência do virtual reside na sua fonte indefinida de atualizações, circunstância que transcende as naturais limitações espaço- temporais tal como existentes nos processos difusores comuns. Decorre desse contexto a assimilação do conceito de virtual pelo jogo de linguagem da Informática, ela mesma um modelo de discurso epistemológico que trouxe para o âmbito do pensamento humano a reflexão sobre a possibilidade de um meio desprovido de extensão fornecer aos seus usuários uma possibilidade de trocas constante de conteúdos informativos. Pierre Lévy afirma que "Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão). [...] É virtual toda entidade "desterritorializada", capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela presa a um lugar ou tempo em particular". Um meio virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital.
ENTRE DOIS MUNDOS
O virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no cotidiano; é, na verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos como "real" por meio de instâncias imateriais, justamente pelo fato de não depender de bases concretas para se desenvolver: "O virtual não "substitui" o "real", ele multiplica as oportunidades para atualizá-lo". Nessas condições, torna-se claro que em cada momento de nossas existências e experiências nos encontramos plenamente delineados pela condição virtual: "O mundo humano é "virtual" desde a origem, mesmo antes das tecnologias digitais, porque contém por todo o lado sementes do futuro, possibilidades inexploradas, formas por nascer que a nossa atenção, os nossos pensamentos, as nossas percepções, os nossos atos e as nossas invenções não param de atualizar".
O desenvolvimento das tecnologias informáticas, considerada em uma dimensão intelectual, expressaria a culminação da experiência da "pós-modernidade", caracterizada pela contraposição aos discursos totalizantes e às narrativas teleológicas (progresso contínuo da humanidade, ação soteriológica do saber científico) próprias da era moderna. A exaustão desse projeto civilizatório conduziu, no plano da construção social do conhecimento, a uma valorização das diferenças e a necessidade de inclusão antropológica dos grupos até então relegados aos con ns periféricos da criação intelectual. Obviamente que as facilidades técnicas proporcionadas pelo advento da informática dinamizaram a produção dos saberes e sua subsequente comunicação, inclusive por indivíduos alheios ao mundo acadêmico. Conforme destacado pelo lósofo francês Jean-François Lyotard, "É razoável pensar que a multiplicação de máquinas informacionais afeta e afetaria a circulação dos conhecimentos, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, das imagens (Mídia) o fez".
A expansão da informática e sua culminação epistemológica pela Internet possibilitaram o desenvolvimento de um sistema colaborativo entre os indivíduos separados espaço-temporalmente em decorrência das condições físicas da própria condição concreta da existência, mas virtualmente uni cados pela grande rede: "Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem a sua bem distinta identidade em favor de redes contínuas de produção de informações"
Os recursos interativos disponíveis antes do advento da Internet se fundamentavam tecnicamente nos padrões "Um-Um" (telefone) e "Um-Todos" (televisão, rádio, jornal). A propagação da Internet faz com que alcançamos assim o estado comunicativo denominado por Pierre Lévy de "Todos-Todos", caracterizado por promover a interação plena de informações entre todos os usuários, sujeitos criadores, conectados na rede virtual. A disposição informativa "Todos-Todos" promove a interação mútua de informações entre todos aqueles que se encontram conectados na rede virtual, pois que, conforme vimos anteriormente, esse meio elimina as barreiras das categorias do espaço e do tempo.
A mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de receptores separados entre si fisicamente. Esse processo comunicativo é o único que torna os usuários centros ativos da construção dos modelos de contato interpessoal. Cada um de nós pode perfeitamente fazer parte desse processo de construção coletiva de conhecimentos a ser compartilhado publicamente no Ciberespaço, dimensão virtual na qual ocorrem as interações informativas entre as pessoas, sem que, todavia, exista uma definição nítida do espaço e do tempo no qual se dão tais acontecimentos. A partir da expansão da Internet, a possibilidade de haver uma maior comunhão dos conhecimentos elaborados alcançou um nível jamais imaginado até então pelas estruturas epistemológicas das eras precedentes. Todavia, há uma curiosa tendência a se dizer que a Internet consumou o esvaziamento das relações pessoais. Será que é mesmo a Internet a motivadora por excelência da separação afetiva entre as pessoas? Ou não seria talvez o ritmo vertiginoso das relações de trabalho, os inúmeros problemas de infraestrutura da sociedade contemporânea que motivam esse distanciamento interpessoal?
Na era informática, a construção antropológica do saber se torna uma experiência multilateral, e não mais unilateral, conforme os princípios dogmáticos da instituição teológica normativa (sectária do argumento de autoridade), ou bilateral, disposição característica da relação dialógica; desse modo, todos os sujeitos devidamente conectados na rede eletrônica tornam-se difusores de conceitos, informações, saberes. Pierre Lévy denomina essa experiência holística de "inteligência coletiva", pois a Internet depende, para o seu contínuo progresso, da atividade plena dos seus usuários, que elaboram de maneira interativa os conteúdos disponibilizados na rede virtual: "O problema da inteligência coletiva é descobrir ou inventar um além da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído e coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais separados, mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas as atividades humanas, volte às mãos de cada um". A finalidade da inteligência coletiva consiste em colocar os recursos das grandes coletividades ao serviço das pessoas e dos pequenos grupos, e não o contrário. Tanto melhor, ela engendra uma mobilização otimizada das competências criativas dos indivíduos: "Longe de fundar as inteligências individuais em uma espécie de magma indistinto, a inteligência coletiva é um processo de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca das singularidades".
LÉVY DENOMINA "INTELIGÊNCIA COLETIVA" A EXPERIÊNCIA DA ATIVIDADE PLENA DOS USUÁRIOS, QUE ELABORAM DE MANEIRA INTERATIVA OS CONTEÚDOS DA REDE
Trata-se do deslocamento de um sistema em que o emissor produz um discurso, enviando-o em seguida para um grupo de receptores para uma estrutura de comunicação multidirecional, onde não está de nido quem são os emissores e os receptores. O filósofo polonês Adam Schaff postulava que a sociedade informática permitirá a formação do homem universal, no sentido de sua formação global, que lhe permitirá fugir do estreito caminho da especialização unilateral e não de se libertar do enclausuramento numa cultura nacional - para converter-se em um cidadão do mundo no melhor sentido do termo.
O jogo de linguagem da Internet exige do usuário uma transformação em seus paradigmas intelectuais, sustentados tradicionalmente por uma adequação a um modelo epistemológico de caráter centralizador próprio da con figuração ideológica da Cultura ocidental, marcada pelo respeito cego ao argumento de autoridade e aos discursos universalistas próprios da tradição ocidental. Contudo, o advento das redes informáticas originou a divisão in nita da subjetividade humana e seus dispositivos intelectuais. Nesse contexto, o sociólogo espanhol Manuel Castells pondera que "A elasticidade da Internet a torna particularmente suscetível a intensificar as tendências contraditórias presentes em nosso mundo. Nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos compreender se quisermos mudar nossa sociedade". A estrutura da comunicação em rede aponta para desdobramentos otimistas no que se refere ao processo de democratização do sistema de comunicação e de interação. Para Pierre Lévy, "O uso socialmente mais rico da informática comunicacional consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma democracia em tempo real".
REORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS
Arquivos imensuráveis, a partir do uso do aparato informatizado, são substituídos por recursos especializados virtuais que substituem, a nível quantitativo, o grande espaço físico destinado ao armazenamento de informações, enquanto que, numa dimensão qualitativa, esses dados podem ser organizados de modo extremamente meticuloso, evitando-se assim os transtornos que ocorrem comumente com os arquivos materiais, tais como danificação dos conteúdos pela ação do tempo ou perdas irreparáveis desses suportes físicos. Pierre Lévy conclama para que nos "Lembremos que uma das principais virtudes de tecnologias intelectuais consiste em oferecer ao sistema cognitivo humano memória externa e sistemas de representação próprios para aliviar a tarefa de sua memória a curto prazo e facilitar a concentração de sua atenção aos elementos mais pensamentos de um problema em dado instante".
Nicholas Negroponte, fundador do celebérrimo MIT, em um comentário preciso, destaca que a Internet oferece um novo veículo para se sair em busca de conhecimento e sentidos. Por conseguinte, a Internet, possibilitando a comunicação global, a fusão intelectual entre emissores e receptores e o estabelecimento da interatividade virtual se estabelece em nossa era como um grande marco epistemológico. Desde as suas origens, a escritura foi concebida e utilizada sob forma de signos relativamente estáticos sobre um suporte físico. Hoje, graças às telas interativas, a informática abre possibilidades radicalmente novas à expressividade do pensamento. Tal como destacado por Nicholas Negroponte: "A superestrada da informação nada mais é do que o movimento global de bits sem peso à velocidade da luz". Nessas condições, os discursos contestadores da pertinência da realidade virtual para a vida humana acabam sendo derrotados pela incompreensão da própria natureza do processo de instauração dos conteúdos informáticos da Internet, talvez pelo fato de que esta, por não existir de forma concreta, extensiva, dê a impressão de que apenas lida com ilusões.
_______________
(*) Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ, professor do Curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA, da Faculdade de Flama e do Departamento de Filosofia do Colégio Pedro II e Membro do Grupo de Pesquisa Spinoza & Nietzsche.
Artigo publicado na Revista Filosofia, ed. nº 68, Março 2012
Formato digital disponível em portalcienciaevida.com.br
domingo, 11 de agosto de 2013
A overdose do petismo
por Percival Puggina (*)
Raras vezes se viu tamanha barafunda num “mar de rosas”. Dilma Rousseff já cumpriu dois terços de seu mandato acumulando trapalhadas e fracassos. Demorou duas décadas mas, finalmente, o PT está alcançando seu objetivo de 1994 – acabar com o Plano Real. O sonho dourado das esquerdas nos anos 90, o fim do programa que deu estabilidade à moeda nacional, aquilo que Lula tentou, mas não conseguiu em seus oito anos, Dilma está realizando em menos de quatro, à base de trombada na cristaleira. O petismo espatifou a Economia e tudo mais à sua volta. Nem despejando bilhões no mercado, o Banco Central consegue conter a evasão das verdinhas ianques, que se retiram do país como os ratos abandonavam o Titanic nas impressionantes cenas do filme de James Cameron.
Há poucos meses, quando o PT festejava em São Paulo seus dez anos no governo da União, o tom ufanista dos discursos mostrava que o partido chegara à overdose de poder. “Pode juntar quem quiser”, bravateou Lula, convicto de nova vitória do partido em 2014. “Qualquer coisa que eles tentarem fazer nós fazemos mais e melhor”, prosseguiu o eufórico ex-presidente, nariz enfiado no pote do poder. Seguiu-lhe a arrevesada sucessora, tratando de mostrar serviço. Arrombou a ostra onde oculta sua sabedoria e extraiu esta pérola: “Não tenho medo de comparações, inclusive sobre corrupção”… Isso tem outro nome, claro. Mas é, também, overdose de poder. Poder sobre a própria imagem, sobre a sociedade, poder sobre os demais poderes, poder sobre a mídia, poder agregado, ano após ano, em sequências exponenciais perante auditórios interesseiros.
Quatro meses depois, foi a vez de o povo evidenciar que também ele tivera sua overdose de petismo. E saiu às ruas para pacíficas e civilizadas demonstrações de inconformidade. O povo deu uma olhada no próprio país e percebeu que, por trás da publicidade, dos cenários, das montagens, das invenções e versões, tudo – simplesmente tudo! – vai muito mal. Depois de dois PACs lançados às urtigas, que não valiam a tinta e o papel gastos para redigi-los, a economia arqueja sobre uma infraestrutura carente de tudo que importa – energia, rodovias, ferrovias, armazenagem, portos. Quanto mais PAC, menos PIB. O Rio São Francisco continua no mesmo lugar, levando, dolente, suas águas para o mar de Alagoas. Nas refinarias projetadas, nada se avoluma com maior rapidez do que o preço inicialmente previsto. Aqui no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, as ditas “obra da Copa” ficarão para depois da Copa. O prometido, jurado e sacramentado metrô de Porto Alegre ainda é um risco no papel, em eterna discussão. E a duplicação da travessia do Guaíba resume-se a um trabalho de computação gráfica.
A Educação brasileira é a penúltima entre 40 países estudados pela Economist Intelligence Unit. A Saúde beira à perfeição. Sim, é um perfeitíssimo pandemônio! Nós, os cidadãos, reconhecemos que houve uma inversão nos extratos sociais. Mudamo-nos para o submundo, para a zona de perigo, onde não existe a proteção da lei, onde padecemos nossa desdita sob a implacável violência do andar de cima. Ali, no andar de cima, é tudo ao contrário e o mundo do crime opera ao resguardo do imenso guarda-chuva gentilmente proporcionado pelo aparelho de Estado e suas leis. É isso que se chama, aqui, de Segurança Pública. Tudo por obra e graça do petismo que chegou à overdose de si mesmo e perdeu os próprios controles.
(*) Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a Tragédia da Utopia e Pombas e Gaviões.
Fonte: ucho.info
Raras vezes se viu tamanha barafunda num “mar de rosas”. Dilma Rousseff já cumpriu dois terços de seu mandato acumulando trapalhadas e fracassos. Demorou duas décadas mas, finalmente, o PT está alcançando seu objetivo de 1994 – acabar com o Plano Real. O sonho dourado das esquerdas nos anos 90, o fim do programa que deu estabilidade à moeda nacional, aquilo que Lula tentou, mas não conseguiu em seus oito anos, Dilma está realizando em menos de quatro, à base de trombada na cristaleira. O petismo espatifou a Economia e tudo mais à sua volta. Nem despejando bilhões no mercado, o Banco Central consegue conter a evasão das verdinhas ianques, que se retiram do país como os ratos abandonavam o Titanic nas impressionantes cenas do filme de James Cameron.
Há poucos meses, quando o PT festejava em São Paulo seus dez anos no governo da União, o tom ufanista dos discursos mostrava que o partido chegara à overdose de poder. “Pode juntar quem quiser”, bravateou Lula, convicto de nova vitória do partido em 2014. “Qualquer coisa que eles tentarem fazer nós fazemos mais e melhor”, prosseguiu o eufórico ex-presidente, nariz enfiado no pote do poder. Seguiu-lhe a arrevesada sucessora, tratando de mostrar serviço. Arrombou a ostra onde oculta sua sabedoria e extraiu esta pérola: “Não tenho medo de comparações, inclusive sobre corrupção”… Isso tem outro nome, claro. Mas é, também, overdose de poder. Poder sobre a própria imagem, sobre a sociedade, poder sobre os demais poderes, poder sobre a mídia, poder agregado, ano após ano, em sequências exponenciais perante auditórios interesseiros.
Quatro meses depois, foi a vez de o povo evidenciar que também ele tivera sua overdose de petismo. E saiu às ruas para pacíficas e civilizadas demonstrações de inconformidade. O povo deu uma olhada no próprio país e percebeu que, por trás da publicidade, dos cenários, das montagens, das invenções e versões, tudo – simplesmente tudo! – vai muito mal. Depois de dois PACs lançados às urtigas, que não valiam a tinta e o papel gastos para redigi-los, a economia arqueja sobre uma infraestrutura carente de tudo que importa – energia, rodovias, ferrovias, armazenagem, portos. Quanto mais PAC, menos PIB. O Rio São Francisco continua no mesmo lugar, levando, dolente, suas águas para o mar de Alagoas. Nas refinarias projetadas, nada se avoluma com maior rapidez do que o preço inicialmente previsto. Aqui no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, as ditas “obra da Copa” ficarão para depois da Copa. O prometido, jurado e sacramentado metrô de Porto Alegre ainda é um risco no papel, em eterna discussão. E a duplicação da travessia do Guaíba resume-se a um trabalho de computação gráfica.
A Educação brasileira é a penúltima entre 40 países estudados pela Economist Intelligence Unit. A Saúde beira à perfeição. Sim, é um perfeitíssimo pandemônio! Nós, os cidadãos, reconhecemos que houve uma inversão nos extratos sociais. Mudamo-nos para o submundo, para a zona de perigo, onde não existe a proteção da lei, onde padecemos nossa desdita sob a implacável violência do andar de cima. Ali, no andar de cima, é tudo ao contrário e o mundo do crime opera ao resguardo do imenso guarda-chuva gentilmente proporcionado pelo aparelho de Estado e suas leis. É isso que se chama, aqui, de Segurança Pública. Tudo por obra e graça do petismo que chegou à overdose de si mesmo e perdeu os próprios controles.
(*) Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a Tragédia da Utopia e Pombas e Gaviões.
Fonte: ucho.info
domingo, 28 de julho de 2013
CONTO: HORACIO QUIROGA - "A LA DERIVA"
A LA DERIVA
El hombre pisó algo blanduzco, y en seguida sintió la mordedura en el pie. Saltó adelante, y al volverse con un juramento vio una yararacusú que arrollada sobre sí misma esperaba otro ataque.
El hombre echó una veloz ojeada a su pie, donde dos gotitas de sangre engrosaban dificultosamente, y sacó el machete de la cintura. La víbora vio la amenaza, y hundió más la cabeza en el centro mismo de su espiral; pero el machete cayó de lomo, dislocándole las vértebras.
El hombre se bajó hasta la mordedura, quitó las gotitas de sangre, y durante un instante contempló. Un dolor agudo nacía de los dos puntitos violetas, y comenzaba a invadir todo el pie. Apresuradamente se ligó el tobillo con su pañuelo y siguió por la picada hacia su rancho.
El dolor en el pie aumentaba, con sensación de tirante abultamiento, y de pronto el hombre sintió dos o tres fulgurantes puntadas que como relámpagos habían irradiado desde la herida hasta la mitad de la pantorrilla. Movía la pierna con dificultad; una metálica sequedad de garganta, seguida de sed quemante, le arrancó un nuevo juramento.
Llegó por fin al rancho, y se echó de brazos sobre la rueda de un trapiche. Los dos puntitos violeta desaparecían ahora en la monstruosa hinchazón del pie entero. La piel parecía adelgazada y a punto de ceder, de tensa. Quiso llamar a su mujer, y la voz se quebró en un ronco arrastre de garganta reseca. La sed lo devoraba.
—¡Dorotea! —alcanzó a lanzar en un estertor—. ¡Dame caña!
Su mujer corrió con un vaso lleno, que el hombre sorbió en tres tragos. Pero no había sentido gusto alguno.
—¡Te pedí caña, no agua! —rugió de nuevo. ¡Dame caña!
—¡Pero es caña, Paulino! —protestó la mujer espantada.
—¡No, me diste agua! ¡Quiero caña, te digo!
La mujer corrió otra vez, volviendo con la damajuana. El hombre tragó uno tras otro dos vasos, pero no sintió nada en la garganta.
—Bueno; esto se pone feo —murmuró entonces, mirando su pie lívido y ya con lustre gangrenoso. Sobre la honda ligadura del pañuelo, la carne desbordaba como una monstruosa morcilla.
Los dolores fulgurantes se sucedían en continuos relampagueos, y llegaban ahora a la ingle. La atroz sequedad de garganta que el aliento parecía caldear más, aumentaba a la par. Cuando pretendió incorporarse, un fulminante vómito lo mantuvo medio minuto con la frente apoyada en la rueda de palo.
Pero el hombre no quería morir, y descendiendo hasta la costa subió a su canoa. Sentóse en la popa y comenzó a palear hasta el centro del Paraná. Allí la corriente del río, que en las inmediaciones del Iguazú corre seis millas, lo llevaría antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
El hombre, con sombría energía, pudo efectivamente llegar hasta el medio del río; pero allí sus manos dormidas dejaron caer la pala en la canoa, y tras un nuevo vómito —de sangre esta vez—dirigió una mirada al sol que ya trasponía el monte.
La pierna entera, hasta medio muslo, era ya un bloque deforme y durísimo que reventaba la ropa. El hombre cortó la ligadura y abrió el pantalón con su cuchillo: el bajo vientre desbordó hinchado, con grandes manchas lívidas y terriblemente doloroso.
El hombre pensó que no podría jamás llegar él solo a Tacurú-Pucú, y se decidió a pedir ayuda a su compadre Alves, aunque hacía mucho tiempo que estaban disgustados.
La corriente del río se precipitaba ahora hacia la costa brasileña, y el hombre pudo fácilmente atracar. Se arrastró por la picada en cuesta arriba, pero a los veinte metros, exhausto, quedó tendido de pecho.
—¡Alves! —gritó con cuanta fuerza pudo; y prestó oído en vano.
—¡Compadre Alves! ¡No me niegue este favor! —clamó de nuevo, alzando la cabeza del suelo. En el silencio de la selva no se oyó un solo rumor. El hombre tuvo aún valor para llegar hasta su canoa, y la corriente, cogiéndola de nuevo, la llevó velozmente a la deriva.
El Paraná corre allí en el fondo de una inmensa hoya, cuyas paredes, altas de cien metros, encajonan fúnebremente el río. Desde las orillas bordeadas de negros bloques de basalto, asciende el bosque, negro también. Adelante, a los costados, detrás, la eterna muralla lúgubre, en cuyo fondo el río arremolinado se precipita en incesantes borbollones de agua fangosa. El paisaje es agresivo, y reina en él un silencio de muerte.
Al atardecer, sin embargo, su belleza sombría y calma cobra una majestad única.
El sol había caído ya cuando el hombre, semitendido en el fondo de la canoa, tuvo un violento escalofrío. Y de pronto, con asombro, enderezó pesadamente la cabeza: se sentía mejor. La pierna le dolía apenas, la sed disminuía, y su pecho, libre ya, se abría en lenta inspiración.
El veneno comenzaba a irse, no había duda. Se hallaba casi bien, y aunque no tenía fuerzas para mover la mano, contaba con la caída del rocío para reponerse del todo.
Calculó que antes de tres horas estaría en Tacurú-Pucú.
El bienestar avanzaba, y con él una somnolencia llena de recuerdos. No sentía ya nada ni en la pierna ni en el vientre. ¿Viviría aún su compadre Gaona en Tacurú -Pucú? Acaso viera también a su ex patrón mister Dougald, y al recibidor del obraje.
¿Llegaría pronto? El cielo, al poniente, se abría ahora en pantalla de oro, y el río se había coloreado también. Desde la costa paraguaya, ya entenebrecida, el monte dejaba caer sobre el río su frescura crepuscular, en penetrantes efluvios de azahar y miel silvestre. Una pareja de guacamayos cruzó muy alto y en silencio hacia el Paraguay.
Allá abajo, sobre el río de oro, la canoa derivaba velozmente, girando a ratos sobre sí misma ante el borbollón de un remolino. El hombre que iba en ella se sentía cada vez mejor, y pensaba entretanto en el tiempo justo que había pasado sin ver a su ex patrón Dougald. ¿Tres años? Tal vez no, no tanto. ¿Dos años y nueve meses? Acaso. ¿Ocho meses y medio? Eso sí, seguramente.
De pronto sintió que estaba helado hasta el pecho. ¿Qué sería? Y la respiración también...
Al recibidor de maderas de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, lo había conocido en Puerto Esperanza un viernes santo... ¿Viernes? Sí, o jueves...
El hombre estiró lentamente los dedos de la mano.
—Un jueves...
Y cesó de respirar.
El hombre pisó algo blanduzco, y en seguida sintió la mordedura en el pie. Saltó adelante, y al volverse con un juramento vio una yararacusú que arrollada sobre sí misma esperaba otro ataque.
El hombre echó una veloz ojeada a su pie, donde dos gotitas de sangre engrosaban dificultosamente, y sacó el machete de la cintura. La víbora vio la amenaza, y hundió más la cabeza en el centro mismo de su espiral; pero el machete cayó de lomo, dislocándole las vértebras.
El hombre se bajó hasta la mordedura, quitó las gotitas de sangre, y durante un instante contempló. Un dolor agudo nacía de los dos puntitos violetas, y comenzaba a invadir todo el pie. Apresuradamente se ligó el tobillo con su pañuelo y siguió por la picada hacia su rancho.
El dolor en el pie aumentaba, con sensación de tirante abultamiento, y de pronto el hombre sintió dos o tres fulgurantes puntadas que como relámpagos habían irradiado desde la herida hasta la mitad de la pantorrilla. Movía la pierna con dificultad; una metálica sequedad de garganta, seguida de sed quemante, le arrancó un nuevo juramento.
Llegó por fin al rancho, y se echó de brazos sobre la rueda de un trapiche. Los dos puntitos violeta desaparecían ahora en la monstruosa hinchazón del pie entero. La piel parecía adelgazada y a punto de ceder, de tensa. Quiso llamar a su mujer, y la voz se quebró en un ronco arrastre de garganta reseca. La sed lo devoraba.
—¡Dorotea! —alcanzó a lanzar en un estertor—. ¡Dame caña!
Su mujer corrió con un vaso lleno, que el hombre sorbió en tres tragos. Pero no había sentido gusto alguno.
—¡Te pedí caña, no agua! —rugió de nuevo. ¡Dame caña!
—¡Pero es caña, Paulino! —protestó la mujer espantada.
—¡No, me diste agua! ¡Quiero caña, te digo!
La mujer corrió otra vez, volviendo con la damajuana. El hombre tragó uno tras otro dos vasos, pero no sintió nada en la garganta.
—Bueno; esto se pone feo —murmuró entonces, mirando su pie lívido y ya con lustre gangrenoso. Sobre la honda ligadura del pañuelo, la carne desbordaba como una monstruosa morcilla.
Los dolores fulgurantes se sucedían en continuos relampagueos, y llegaban ahora a la ingle. La atroz sequedad de garganta que el aliento parecía caldear más, aumentaba a la par. Cuando pretendió incorporarse, un fulminante vómito lo mantuvo medio minuto con la frente apoyada en la rueda de palo.
Pero el hombre no quería morir, y descendiendo hasta la costa subió a su canoa. Sentóse en la popa y comenzó a palear hasta el centro del Paraná. Allí la corriente del río, que en las inmediaciones del Iguazú corre seis millas, lo llevaría antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
El hombre, con sombría energía, pudo efectivamente llegar hasta el medio del río; pero allí sus manos dormidas dejaron caer la pala en la canoa, y tras un nuevo vómito —de sangre esta vez—dirigió una mirada al sol que ya trasponía el monte.
La pierna entera, hasta medio muslo, era ya un bloque deforme y durísimo que reventaba la ropa. El hombre cortó la ligadura y abrió el pantalón con su cuchillo: el bajo vientre desbordó hinchado, con grandes manchas lívidas y terriblemente doloroso.
El hombre pensó que no podría jamás llegar él solo a Tacurú-Pucú, y se decidió a pedir ayuda a su compadre Alves, aunque hacía mucho tiempo que estaban disgustados.
La corriente del río se precipitaba ahora hacia la costa brasileña, y el hombre pudo fácilmente atracar. Se arrastró por la picada en cuesta arriba, pero a los veinte metros, exhausto, quedó tendido de pecho.
—¡Alves! —gritó con cuanta fuerza pudo; y prestó oído en vano.
—¡Compadre Alves! ¡No me niegue este favor! —clamó de nuevo, alzando la cabeza del suelo. En el silencio de la selva no se oyó un solo rumor. El hombre tuvo aún valor para llegar hasta su canoa, y la corriente, cogiéndola de nuevo, la llevó velozmente a la deriva.
El Paraná corre allí en el fondo de una inmensa hoya, cuyas paredes, altas de cien metros, encajonan fúnebremente el río. Desde las orillas bordeadas de negros bloques de basalto, asciende el bosque, negro también. Adelante, a los costados, detrás, la eterna muralla lúgubre, en cuyo fondo el río arremolinado se precipita en incesantes borbollones de agua fangosa. El paisaje es agresivo, y reina en él un silencio de muerte.
Al atardecer, sin embargo, su belleza sombría y calma cobra una majestad única.
El sol había caído ya cuando el hombre, semitendido en el fondo de la canoa, tuvo un violento escalofrío. Y de pronto, con asombro, enderezó pesadamente la cabeza: se sentía mejor. La pierna le dolía apenas, la sed disminuía, y su pecho, libre ya, se abría en lenta inspiración.
El veneno comenzaba a irse, no había duda. Se hallaba casi bien, y aunque no tenía fuerzas para mover la mano, contaba con la caída del rocío para reponerse del todo.
Calculó que antes de tres horas estaría en Tacurú-Pucú.
El bienestar avanzaba, y con él una somnolencia llena de recuerdos. No sentía ya nada ni en la pierna ni en el vientre. ¿Viviría aún su compadre Gaona en Tacurú -Pucú? Acaso viera también a su ex patrón mister Dougald, y al recibidor del obraje.
¿Llegaría pronto? El cielo, al poniente, se abría ahora en pantalla de oro, y el río se había coloreado también. Desde la costa paraguaya, ya entenebrecida, el monte dejaba caer sobre el río su frescura crepuscular, en penetrantes efluvios de azahar y miel silvestre. Una pareja de guacamayos cruzó muy alto y en silencio hacia el Paraguay.
Allá abajo, sobre el río de oro, la canoa derivaba velozmente, girando a ratos sobre sí misma ante el borbollón de un remolino. El hombre que iba en ella se sentía cada vez mejor, y pensaba entretanto en el tiempo justo que había pasado sin ver a su ex patrón Dougald. ¿Tres años? Tal vez no, no tanto. ¿Dos años y nueve meses? Acaso. ¿Ocho meses y medio? Eso sí, seguramente.
De pronto sintió que estaba helado hasta el pecho. ¿Qué sería? Y la respiración también...
Al recibidor de maderas de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, lo había conocido en Puerto Esperanza un viernes santo... ¿Viernes? Sí, o jueves...
El hombre estiró lentamente los dedos de la mano.
—Un jueves...
Y cesó de respirar.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
ENTREVISTA: socióloga Maria da Glória Gohn
Para socióloga, população que foi às ruas em junho é crítica em relação à atual forma de fazer política, a partidos e aos sindicatos
A socióloga Maria da Glória Gohn, professora da Unicamp e especialista em movimentos sociais, autora do recém-lançado "Sociologia dos movimentos sociais" (Cortez Editora), em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Beraba (Estadão), afirmou: "Os jovens de 68 queriam participar da política, eram contrários às políticas conservadoras e porta vozes de políticas libertárias, aderiam a grupos com ideologias políticas; os manifestantes de 2013 querem outra política, diferente dos termos e formas como tem sido praticada. Querem outra política sem enquadramentos partidários e ideológicos, mais libertários. Em 68 propunham-se alianças com operários e camponeses. Em 2013 não se coloca a questão de alianças de classe; questões da ética, da moralidade pública são prioritárias. Em síntese: em 68 os jovens queriam mudar a sociedade via mudanças políticas. Hoje, querem mudanças na política via atuação diferenciada do Estado no atendimento à sociedade. Não negam o Estado, querem um Estado mais eficiente."
A socióloga Maria da Glória Gohn, professora da Unicamp e especialista em movimentos sociais, autora do recém-lançado "Sociologia dos movimentos sociais" (Cortez Editora), em entrevista concedida ao jornalista Marcelo Beraba (Estadão), afirmou: "Os jovens de 68 queriam participar da política, eram contrários às políticas conservadoras e porta vozes de políticas libertárias, aderiam a grupos com ideologias políticas; os manifestantes de 2013 querem outra política, diferente dos termos e formas como tem sido praticada. Querem outra política sem enquadramentos partidários e ideológicos, mais libertários. Em 68 propunham-se alianças com operários e camponeses. Em 2013 não se coloca a questão de alianças de classe; questões da ética, da moralidade pública são prioritárias. Em síntese: em 68 os jovens queriam mudar a sociedade via mudanças políticas. Hoje, querem mudanças na política via atuação diferenciada do Estado no atendimento à sociedade. Não negam o Estado, querem um Estado mais eficiente."
Como bem aponta Marcelo Beraba, a população que se identificou com os movimentos de rua de Junho não atendeu à convocação das centrais sindicais para o Dia Nacional de Luta, em 11/07. A nova geração de jovens não se identifica com as formas de organização existentes e reage ao modelo de sociedade em que vive, "de muito consumo, mas de qualidade de vida sofrível".
Leia a excelente entrevista com a socióloga Maria da Glória Gohn na íntegra: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,apos-atos-governo-nao-tem-interlocutores,1053152,0.htm
Leia a excelente entrevista com a socióloga Maria da Glória Gohn na íntegra: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,apos-atos-governo-nao-tem-interlocutores,1053152,0.htm
QUESTÕES:
1. Como a socióloga define os movimentos sociais de Junho no Brasil?
2. Para a socióloga como se diferenciam os movimentos de 1968 e dos anos 1990 no Brasil?
3. O que querem os jovens brasileiros que foram para as ruas protestar?
4. Em que ideologias estes movimentos se inspiram?
quarta-feira, 24 de julho de 2013
O Custo Brasil
Economistas dizem que grande parte da culpa para os preços incrivelmente altos no Brasil podem ser colocados em um sistema fiscal disfuncional que prioriza a impostos sobre o consumo.
SÃO PAULO, Brasil - Os clientes aqui
com noção de quanto os itens custam no exterior precisam se preparar ao comprar
um Samsung Galaxy S4 telefone: o mesmo modelo que custa 615 dólares nos Estados
Unidos é quase o dobro do que no Brasil. Um choque ainda maior espera por
pais que necessitam de um berço: o mais barato na Tok & Stok custa mais
de US$ 440, mais de seis vezes o preço de um item feito de forma semelhante no Ikea, nos Estados Unidos.
Para os brasileiros fervendo de
ressentimento sobre gastos desnecessários pela elite política do país, os
preços elevados devem pagar para quase tudo - uma grande pizza de queijo pode
custar quase US$ 30 -, apenas alimentar a sua ira.
"As pessoas ficam com raiva
porque nós sabemos que há maneiras de fazer as coisas mais barato, nós vemos em
outro lugar, por isso sabemos que deve haver algo errado aqui", disse
Luana Medeiros, 28, que trabalha no Ministério da Educação.
Protestos de rua no Brasil cresceram
a partir de uma campanha popular contra o aumento da tarifa de ônibus. Moradores
de São Paulo e Rio de Janeiro passar uma parcela muito maior de seus salários
para pegar o ônibus que os moradores de Nova York ou Paris. No entanto, o
preço do transporte é apenas um exemplo das lutas que muitos brasileiros
enfrentam para fazer face às despesas, dizem os economistas.
Alugar um apartamento em áreas
cobiçadas do Rio de Janeiro tornou-se mais caro do que em Oslo, capital da
Noruega, rica em petróleo. Antes dos protestos, o aumento dos preços dos
alimentos básicos, como tomates, solicitando paródias a presidente Dilma Rousseff e seus assessores
econômicos.
A inflação está em torno de 6,4 por
cento, com muitos na classe média reclamando que eles estão arcando com o ônus
dos aumentos de preços. Limitando margem de manobra das autoridades, a
indignação popular é inflamada numa época em que grandes projetos de estímulo
estão deixando de tirar a economia de uma desaceleração, aumentando o espectro
da estagnação na maior economia da América Latina.
"O Brasil está à beira da
recessão, agora que o boom das commodities é longo", disse Luciano Sobral,
economista e sócio de uma empresa de gestão de Paulo São ativo que mantém uma
economia irreverente do blog com o nome do Drunkeynesian. "Isso é o que torna impossível
ignorar os altos preços que afligem os brasileiros, especialmente aqueles que
não podem facilmente dar ao luxo de viajar para o estrangeiro para a compra de
farras onde as coisas são mais baratas."
Custos do Brasil altíssimos podem
ser atribuídos a uma série de fatores, incluindo gargalos de transporte que
tornam caro para obter produtos para os consumidores, as políticas
protecionistas que escudo fabricantes brasileiros de competição e um legado dos
consumidores um pouco acostumados com inflação relativamente alta, o que está
longe 2.477 por cento abaixo do alcançado em 1993, antes de uma reestruturação
drástica da economia.
Mas economistas dizem que grande
parte da culpa para os preços incrivelmente altos podem ser colocados em um
sistema fiscal disfuncional que prioriza a impostos sobre o consumo, que são
relativamente fáceis de coletar, mais imposto de renda.
Alexandre Versignassi, um escritor
especializado em decifrar o código tributário do Brasil, disse que as empresas
estavam a braços com 88 tributos federais, estaduais e municipais, alguns dos
quais são cobrados diretamente aos consumidores. Manter os contabilistas
em seus dedos, as autoridades brasileiras emitir cerca de 46 novas normas
tributárias a cada dia, disse ele.
Para piorar as coisas para muitos
brasileiros pobres e de classe média, brechas permitem aos ricos para evitar a
tributação em grande parte de sua renda; investidores ricos, por exemplo, pode
evitar impostos sobre o rendimento de dividendos e parceiros em empresas
privadas são tributados a uma taxa muito mais baixa que muitos empregados
regulares.
O resultado é que muitos produtos
feitos no Brasil, como automóveis, custa muito mais aqui do que nos países mais
distantes que os importados. Um exemplo é o Gol , um carro compacto produzido
pela Volkswagen em uma fábrica na região metropolitana de São Paulo. O Gol
quatro portas com ar-condicionado é vendido por cerca de 16.100 dólares aqui,
incluindo os impostos.No México, o modelo equivalente, feito no Brasil, mas
vendida a mexicanos como o novo Gol , custa milhares de dólares a
menos.
A capacidade de muitos brasileiros
para pagar esses carros reflete mudanças econômicas positivas ao longo da
última década, como a ascensão de milhões de pessoas de pobreza extrema e uma
redução do desemprego, que agora está em níveis historicamente baixos. Os
salários subiram durante esse tempo, com uma renda per capita agora cerca de
11.630 dólares americanos, medido pelo Banco Mundial, em comparação com $ 6.990
na vizinha Colômbia. Mas o Brasil encontra-se muito abaixo nações como o
Canadá, onde a renda per capita é de 50.970 $ desenvolvido.
Como resultado, um morador de São
Paulo, a capital financeira do Brasil, tem que trabalhar uma média de 106 horas
para comprar um iPhone, enquanto alguém, em Bruxelas, trabalho 54 horas para
comprar o mesmo produto, de acordo com um estudo global dos salários pelo investimento banco UBS. Para comprar um Big Mac, um
morador aqui tem que trabalhar 39 minutos, em comparação com 11 minutos para um
morador de Chicago.
Passeie em qualquer aeroporto
internacional no Brasil, e esses desequilíbrios são vividamente em exposição,
com milhares de moradores de embalagem em voos a cada dia para fazer compras
para os países onde as mercadorias são substancialmente mais barato.
Mesmo que a moeda brasileira, o
real, se enfraqueceu em relação ao dólar este ano (que atualmente está em torno
de 2,20 para o dólar), os brasileiros gastaram 2,2 bilhões dólares no exterior,
em maio, o maior valor já registrado para o mês desde que o banco central
começou a acompanhar tais dados, em 1969.
De olho neste mercado, alguns
agentes de viagens começaram a alfaiataria viagens a Miami para os clientes
ansiosos para comprar produtos para bebês, como monitores digitais, carrinhos,
chupetas, mesmo Pampers, que no Brasil custa quase três vezes mais do
que nos Estados Unidos.
Buscando evitar tais farras de
compras ficar fora de controle, os policiais federais abordam viajantes no
momento da chegada, escolhendo pessoas cuja bagagem parece bojo com muitos
itens. Se puder ser provado que os brasileiros gastaram ao longo de certo
limite, no exterior, eles são imediatamente obrigados a pagar impostos sobre
suas compras.
Essa seleção alcança estrangeiros,
também. Em maio, a polícia no aeroporto internacional de São Paulo prendeu
dois comissários de bordo americanos Airlines, ambos cidadãos americanos, sob a
acusação de contrabando depois que foram encontrados passar pela alfândega
transportando um total de 14 smartphones, 4 computadores tablet, três relógios
de luxo e vários videogames.Os smartphones foram escondidos em suas roupas
íntimas, disse a polícia, e foram destinados a serem vendidos no mercado negro.
Antes de o início dos protestos, o
governo do Brasil começou a tentar combater o aumento dos preços. O Banco
Central elevou as taxas de juros após um tumulto sobre os preços dos alimentos
este ano contribuiu para os temores de inflação. As autoridades removido
alguns impostos sobre alguns produtos, como carros.Mesmo assim, a inflação
continua elevada, enquanto a economia continua a ser lenta, deixando muitos
brasileiros fumegantes sobre os altos impostos embutidos no preço dos produtos
que compram.
Uma nova lei federal que exige
varejistas detalhes sobre as receitas quanto os clientes de impostos estão
sendo cobrados alimentou um pouco dessa raiva. Fernando Bergamini, 38 anos,
designer gráfico, ficou atordoado depois de gastar 92 dólares um dia recente em
mantimentos como tomate, feijão e banana, só para olhar para o seu recebimento
e descobrir que US $ 25 do que era em impostos.
"É chocante dado os serviços
que recebem para dar ao governo o nosso dinheiro", disse Bergamini. "Vê-lo
assim em um pedaço de papel me faz sentir indignado."
(Por Simon Romero, do New York Times
Tradução via Google Translate, por isso a imperfeição do texto.
O título do artigo original foi modificado aqui nesta publicação no blog.
Tradução via Google Translate, por isso a imperfeição do texto.
O título do artigo original foi modificado aqui nesta publicação no blog.
A reportagem original disponível em http://mobile.nytimes.com/2013/07/23/world/americas/prices-fuel-outrage-in-brazil-home-of-the-30-cheese-pizza.html )
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Manifestantes avaliam protestos de Junho
Um mês depois, manifestantes avaliam legado dos protestos de Junho
por Paula Adamo Idoeta, da BBC Brasil
por Paula Adamo Idoeta, da BBC Brasil
Eles são alguns dos jovens que engrossaram as multidões que tomaram as ruas do país na onda de manifestações que se espalhou por todas as regiões do Brasil.
Exatamente um mês atrás, em 17 de junho, os protestos alcançaram diversas cidades brasileiras e culminaram com a tomada do teto do Congresso Nacional pelos manifestantes de Brasília; poucos dias depois, em 20 de junho, a multidão que saiu para protestar foi estimada em mais de 1 milhão de pessoas em todo o país.
Mas até onde vai o impacto da mobilização vista em junho na vida dos jovens do país? E qual é o papel que eles veem para si nos rumos da política do país?
"Essa geração, que já é a maior parcela da população brasileira, assumiu um novo tipo de protagonismo, e acho que isso é irreversível", opina à BBC Brasil o cientista político Paulo Baía, da UFRJ.
"Eles não têm a obrigação de serem gratos pelo fim da hiperinflação como a geração anterior. Demandam reconhecimento, respeito, participação no processo decisório", diz Baía.
"Mas as instituições comuns não os representam neste momento. São pessoas que sabem o que não querem e estão abertas a possibilidades" - mesmo que essas possibilidades ainda não estejam totalmente claras, acrescenta o acadêmico.
A BBC Brasil conversou com cinco jovens de diferentes perfis e graus de militância política, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, e perguntou como os protestos mudaram suas expectativas em relação ao país - bem como suas próprias vidas.
Confira a reportagem na íntegra:
< http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/07/130716_protestos_ummes_opinioes_pai.shtml >
segunda-feira, 15 de julho de 2013
A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura!
A Comissão da Verdade está em crise. Dos sete integrantes nomeados por Dilma, dois já desistiram, e a comissão tem se notabilizado por um burocratismo excessivo, falta de transparência e, sobretudo, ausência de uma estratégia de comunicação, fundamental para que se transforme em algo realmente instrutivo e producente.
Entretanto, talvez o principal entrave a bloquear os trabalhos da Comissão seja a sua falta de vontade de investigar o papel da mídia na ditadura. Morando no Rio, perto do centro, eu tive o privilégio de frequentar a Biblioteca Nacional e ler as edições dos principais jornais brasileiros nas semanas que antecederam o golpe militar. Houve uma construção deliberada, de jornais como O Globo, a Folha e o Estadão, para criar uma atmosfera de golpe. Há inúmeros estudos que revelam a articulação, muitas vezes patrocinada por agências norte-americanas, para orientar a mídia brasileira numa direção antitrabalhista, antinacional e antigoverno.
Nacionalismo e trabalhismo, no Brasil, sempre estiveram associados à esquerda, visto que nossa direita é, historicamente, vendida ao imperialismo americano.
A Comissão não pode ser usada apenas para culpar velhinhos de noventa anos que torturaram subversivos quarenta anos atrás. Estes deveriam sim ser condenados, como fizeram nossos vizinhos. Mas os tubarões, aqueles que efetivamente contribuíram para o golpe, foram grandes empresas, com ênfase nas empresas de mídia. O Brasil precisa conhecer a maneira pela qual essas empresas se consolidaram e assumiram uma posição hegemômica no setor de comunicação social.
A concentração da mídia e do mercado de publicidade é um fenômeno mundial, que aconteceria com ou sem ditadura. Mas com a ditadura, ele se deu de maneira muito mais brutal, com artificialismo e enorme interferência estrangeira.
A Comissão investigará, por exemplo, o apoio dos Estados Unidos às Organizações Globo, antes e depois da ditadura?
Se quiser se conhecer a si mesmo, o Brasil precisa enfrentar essas questões. Não por revanchismo, mas por razões acadêmicas, históricas e políticas. O Brasil merece a verdade. O Brasil merece saber, em detalhes, de que lado a Globo ficou quando a democracia brasileira foi brutalizada, e de que lado permaneceu enquanto ela foi torturada.
Seguramente há muitas histórias de corrupção por trás da consolidação do império global durante o regime, que nossos jovens precisam conhecer. Até para que as novas gerações não cometam os mesmos erros das antigas, de se deixarem levar por campanhas midiáticas agressivas, moralizantes, de cunho antidemocrático.
A Comissão da Verdade, se não quiser ser conhecida como Comissão da Covardia, precisa responder às ruas, que estão gritando:
A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura!
Fonte: Miguel do Rosário, no Tijolaço
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Cultura, política, protestos, massa, CUT... & Freud: algumas interrelações?
I
Todo aquel que ha vivido largo tiempo dentro de una determinada cultura y se ha planteado repetidamente el problema de cuáles fueron los orígenes y la trayectoria evolutiva de la misma, acaba por ceder también alguna vez a la tentación de orientar su mirada en sentido opuesto y preguntarse cuáles serán los destinos futuros de tal cultura y por qué avatares habrá aún de pasar. No tardamos, sin embargo, en advertir que ya el valor inicial de tal investigación queda considerablemente disminuido por la acción de varios factores. Ante todo, son muy pocas las personas capaces de una visión total de la actividad humana en sus múltiples modalidades. La inmensa mayoría de los hombres se ha visto obligada a limitarse a escasos sectores o incluso a uno solo. Y cuanto menos sabemos del pasado y del presente, tanto más inseguro habrá de ser nuestro juicio sobre el porvenir. Pero, además, precisamente en la formación de este juicio intervienen, en un grado muy difícil de precisar, las esperanzas subjetivas individuales, las cuales dependen, a su vez, de factores puramente personales, esto es, de la experiencia de cada uno y de su actitud más o menos optimista ante la vida, determinada por el temperamento, el éxito o el fracaso. Por último, ha de tenerse también en cuenta el hecho singular de que los hombres viven, en general, el presente con una cierta ingenuidad; esto es, sin poder llegar a valorar exactamente sus contenidos. Para ello tienen que considerarlo a distancia, lo cual supone que el presente ha de haberse convertido en pretérito para que podamos hallar en él puntos de apoyo en que basar un juicio sobre el porvenir.
Así, pues, al ceder a la tentación de pronunciarnos sobre el porvenir probable de nuestra cultura, obraremos prudentemente teniendo en cuenta los reparos antes indicados al mismo tiempo que la inseguridad inherente a toda predicción. Por lo que a mí respecta, tales consideraciones me llevarán a apartarme rápidamente de la magna labor total y a refugiarme en el pequeño sector parcial al que hasta ahora he consagrado mi atención, limitándome a fijar previamente su situación dentro de la totalidad.
La cultura humana - entendiendo por tal todo aquello en que la vida humana ha superado sus condiciones zoológicas y se distingue de la vida de los animales, y desdeñando establecer entre los conceptos de cultura y civilización separación alguna -; la cultura humana; repetimos, muestra como es sabido, al observador dos distintos aspectos. Por un lado, comprende todo el saber y el poder conquistados por los hombres para llegar a dominar las fuerzas de la Naturaleza y extraer los bienes naturales con que satisfacer las necesidades humanas, y por otro, todas las organizaciones necesarias para regular las relaciones de los hombres entre sí y muy especialmente la distribución de los bienes naturales alcanzables. Estas dos direcciones de la cultura no son independientes una de otra; en primer lugar, porque la medida en que los bienes existentes consienten la satisfacción de los instintos ejerce profunda influencia sobre las relaciones de los hombres entre sí; en segundo, porque también el hombre mismo, individualmente considerado, puede representar un bien natural para otro en cuanto éste utiliza su capacidad de trabajo o hace de él su objeto sexual. Pero, además, porque cada individuo es virtualmente un enemigo de la civilización, a pesar de tener que reconocer su general interés humano. Se da, en efecto, el hecho singular de que los hombres, no obstante, serles imposible existir en el aislamiento, sienten como un peso intolerable los sacrificios que la civilización les impone para hacer posible la vida en común. Así, pues, la cultura ha de ser defendida contra el individuo, y a esta defensa responden todos sus mandamientos, organizaciones e instituciones, los cuales no tienen tan sólo por objeto efectuar una determinada distribución de los bienes naturales, sino también mantenerla e incluso defender contra los impulsos hostiles de los hombres los medios existentes para el dominio de la Naturaleza y la producción de bienes. Las creaciones de los hombres son fáciles de destruir, y la ciencia y la técnica por ellos edificada pueden también ser utilizadas para su destrucción.
Experimentamos así la impresión de que la civilización es algo que fue impuesto a una mayoría contraria a ella por una minoría que supo apoderarse de los medios de poder y de coerción. Luego no es aventurado suponer que estas dificultades no son inherentes a la esencia misma de la cultura, sino que dependen de las imperfecciones de las formas de cultura desarrolladas hasta ahora. Es fácil, en efecto, señalar tales imperfecciones. Mientras que en el dominio de la Naturaleza ha realizado la Humanidad continuos progresos y puede esperarlos aún mayores, no puede hablarse de un progreso análogo en la regulación de las relaciones humanas, y probablemente en todas las épocas, como de nuevo ahora, se han preguntado muchos hombres si esta parte de las conquistas culturales merece, en general, ser defendida. Puede creerse en la posibilidad de una nueva regulación de las relaciones humanas, que cegará las fuentes del descontento ante la cultura, renunciando a la coerción y a la yugulación de los instintos, de manera que los hombres puedan consagrarse, sin ser perturbados por la discordia interior, a la adquisición y al disfrute de los bienes terrenos. Esto sería la edad de oro, pero es muy dudoso que pueda llegarse a ello. Parece, más bien, que toda la civilización ha de basarse sobre la coerción y la renuncia a los instintos, y ni siquiera puede asegurarse que al desaparecer la coerción se mostrase dispuesta la mayoría de los individuos humanos a tomar sobre sí la labor necesaria para la adquisición de nuevos bienes. A mi juicio, ha de contarse con el hecho de que todos los hombres integran tendencias destructoras -antisociales y anticulturales- y que en gran número son bastante poderosas para determinar su conducta en la sociedad humana.
Este hecho psicológico presenta un sentido decisivo para el enjuiciamiento de la cultura humana. En un principio pudimos creer que su función esencial era el dominio de la Naturaleza para la conquista de los bienes vitales y que los peligros que la amenazan podían ser evitados por medio de una adecuada distribución de dichos bienes entre los hombres. Mas ahora vemos desplazado el nódulo de la cuestión desde lo material a lo anímico. Lo decisivo está en si es posible aminorar, y en qué medida, los sacrificios impuestos a los hombres en cuanto a la renuncia a la satisfacción de sus instintos, conciliarlos con aquellos que continúen siendo necesarios y compensarles de ellos. El dominio de la masa por una minoría seguirá demostrándose siempre tan imprescindible como la imposición coercitiva de la labor cultural, pues las masas son perezosas e ignorantes, no admiten gustosas la renuncia al instinto, siendo útiles cuantos argumentos se aduzcan para convencerlas de lo inevitable de tal renuncia, y sus individuos se apoyan unos a otros en la tolerancia de su desenfreno. Unicamente la influencia de individuos ejemplares a los que reconocen como conductores puede moverlas a aceptar aquellos esfuerzos y privaciones imprescindibles para la perduración de la cultura. Todo irá entonces bien mientras que tales conductores sean personas que posean un profundo conocimiento de las necesidades de la vida y que se hayan elevado hasta el dominio de sus propios deseos instintivos. Pero existe el peligro de que para conservar su influjo hagan a las masas mayores concesiones que éstas a ellos, y, por tanto, parece necesario que la posesión de medios de poder los haga independientes de la colectividad. En resumen: el hecho de que sólo mediante cierta coerción puedan ser mantenidas las instituciones culturales es imputable a dos circunstancias ampliamente difundidas entre los hombres: la falta de amor al trabajo y la ineficacia de los argumentos contra las pasiones.
Sé de antemano la objeción que se opondrá a estas afirmaciones. Se dirá que la condición que acabamos de atribuir a las colectividades humanas, y en la que vemos una prueba de la necesidad de una coerción que imponga la labor cultural, no es por sí misma sino una consecuencia de la existencia de instituciones culturales defectuosas que han exasperado a los hombres haciéndolos vengativos e inasequibles. Nuevas generaciones, educadas con amor y en la más alta estimación del pensamiento, que hayan experimentado desde muy temprano los beneficios de la cultura, adoptarán también una distinta actitud ante ella, la considerarán como su más preciado patrimonio y estarán dispuestas a realizar todos aquellos sacrificios necesarios para su perduración, tanto en trabajo como en renuncia a la satisfacción de los instintos. Harán innecesaria la coerción y se diferenciarán muy poco de sus conductores. Si hasta ahora no ha habido en ninguna cultura colectividades humanas de esta condición, ello se debe a que ninguna cultura ha acertado aún con instituciones capaces de influir sobre los hombres en tal sentido y precisamente desde su infancia.
Podemos preguntarnos si nuestro dominio sobre la Naturaleza permite ya, o permitirá algún día, el establecimiento de semejantes instituciones culturales, e igualmente de dónde habrán de surgir aquellos hombres superiores, prudentes y desinteresados que hayan de actuar como conductores de las masas y educadores de las generaciones futuras. Puede intimidarnos la magna coerción inevitable para la consecución de estos propósitos. Pero no podemos negar la grandeza del proyecto ni su importancia para el porvenir de la cultura humana. Se nos muestra basado en el hecho psicológico de que el hombre integra las más diversas disposiciones instintivas, cuya orientación definitiva es determinada por las tempranas experiencias infantiles. De este modo, los límites de la educabilidad del hombre supondrán también los de la eficacia de tal transformación cultural. Podemos preguntarnos si un distinto ambiente cultural puede llegar a extinguir, y en qué medida, los dos caracteres de las colectividades humanas antes señaladas que tanto dificultan su conducción. Tal experimento está aún por hacer. Probablemente cierto tanto por ciento de la Humanidad permanecerá siempre asocial, a consecuencia de una disposición patológica o de una exagerada energía de los instintos. Pero si se consigue reducir a una minoría la actual mayoría hostil a la cultura se habrá alcanzado mucho, quizá todo lo posible.
No quisiera despertar la impresión de haberme desviado mucho del camino prescrito a mi investigación y, por tanto, he de afirmar explícitamente que no me he propuesto en absoluto enjuiciar el gran experimento de cultura emprendido actualmente en el amplio territorio situado entre Europa y Asia. Carezco de conocimiento suficiente de la cuestión y de capacidad para pronunciarme sobre sus posibilidades, contrastar la educación de los métodos aplicados a estimar la magnitud del abismo inevitable entre el propósito y la realización. Lo que allí se prepara, inacabado aún, elude, como tal, una precisa observación, a la cual ofrece, en cambio, rica materia nuestra cultura, consolidada hace ya largo tiempo.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Golpe na pauta: Foro de São Paulo confirma o perigoso avanço do projeto totalitarista do PT
Muito cuidado – Os brasileiros de
bem precisam estar atentos para os movimentos do governo e do PT, que trabalham
para instalar no País um regime esquerdista de exceção. Em marcha desde a
chegada de Lula ao Palácio do Planalto, em 2003, o plano tem como pano de fundo
as decisões tomadas no malfadado Foro de São Paulo, grupo que reúne a esquerda
latino-americana.
Enquanto a população se distraía com
a Copa das Confederações, o governo de Dilma Vana Rousseff, a ex-terrorista do
grupo VAR-Palmares, cuidava dos detalhes finais de mais um encontro do Foro de
São Paulo, que acontecerá na capital paulista entre os dias 31 de julho e 4 de
agosto.
Alguns fatos devem ser considerados
preocupantes tendo em vista a sanha do PT pelo totalitarismo comunista. A
insistência de Dilma Rousseff para que seja realizado um plebiscito sobre a
reforma política é prova inconteste do golpe que está sendo arquitetado nos
bastidores. A situação torna-se ainda mais preocupante quando considerado o
fato de que o MST, após reunião com Dilma, anunciou que sairá às ruas para
defender o plebiscito.
O Palácio do Planalto desistiu
temporariamente de “importar” 6 mil médicos cubanos, que na verdade são agentes
do regime castrista, mas a operação, que atende aos interesses da esquerda
latino-americana, não está descartada. Os tais “médicos” atuariam em
localidades mais distantes, mas a verdadeira missão seria promover uma lavagem
cerebral nas comunidades rurais.
O plano de esquerdização da América
Latina segue a passos largos, sem que os brasileiros se preocupem com fatos
isolados. Não foi por acaso que Nicolás Maduro, presidente da Venezuela,
indicou o ex-ministro de Defesa, Diego Molero, como embaixador para o Brasil.
Outro fato que está sendo tratado de
forma isolada é a decisão dos governos da Venezuela e da Bolívia de concederem
asilo político a Edward Snowden, ex-técnico em segurança digital da CIA que
revelou ao mundo as ações de espionagem eletrônica da Casa Branca.
Escândalos financeiros envolvendo
empresas com ligações com a cúpula petista devem ser monitorados diuturnamente.
Empréstimos oficiais como os que foram concedidos às empresas de Eike Batista
existem às dúzias. E não é por acaso que Lula tem se apresentado como lobista
internacional de empreiteiras, que com o suado dinheiro do contribuinte fazem
obras faraônicas em países que jamais quitarão a dívida com o governo
brasileiro. Parte do dinheiro surrupiado dos brasileiros está financiando a
sobrevivência da esquerda no continente.
Ao se montar o quebra-cabeça
percebe-se que o PT não age isoladamente para implantar no Brasil o socialismo
obtuso que levou a Venezuela à degradação como nação. Ainda há tempo para uma
reação, mas é preciso começar agora. O primeiro passo é protestar contra o Foro
de São Paulo.
Fonte:
ucho.info
terça-feira, 23 de abril de 2013
CONTOS: Horacio Quiroga -- La gallina degollada
La gallina degollada
Todo el día, sentados en el patio,
en un banco estaban los cuatro hijos idiotas del matrimonio Mazzini-Ferraz.
Tenían la lengua entre los labios, los ojos estúpidos, y volvían la cabeza con
la boca abierta.
El patio era de tierra, cerrado al
oeste por un cerco de ladrillos. El banco quedaba paralelo a él, a cinco
metros, y allí se mantenían inmóviles, fijos los ojos en los ladrillos. Como el
sol se ocultaba tras el cerco, al declinar los idiotas tenían fiesta. La luz
enceguecedora llamaba su atención al principio, poco a poco sus ojos se
animaban; se reían al fin estrepitosamente, congestionados por la misma
hilaridad ansiosa, mirando el sol con alegría bestial, como si fuera comida.
Otra veces, alineados en el banco,
zumbaban horas enteras, imitando al tranvía eléctrico. Los ruidos fuertes
sacudían asimismo su inercia, y corrían entonces, mordiéndose la lengua y
mugiendo, alrededor del patio. Pero casi siempre estaban apagados en un sombrío
letargo de idiotismo, y pasaban todo el día sentados en su banco, con las
piernas colgantes y quietas, empapando de glutinosa saliva el pantalón.
El mayor tenía doce años y el menor,
ocho. En todo su aspecto sucio y desvalido se notaba la falta absoluta de un
poco de cuidado maternal.
Esos cuatro idiotas, sin embargo,
habían sido un día el encanto de sus padres. A los tres meses de casados,
Mazzini y Berta orientaron su estrecho amor de marido y mujer, y mujer y
marido, hacia un porvenir mucho más vital: un hijo. ¿Qué mayor dicha para dos
enamorados que esa honrada consagración de su cariño, libertado ya del vil
egoísmo de un mutuo amor sin fin ninguno y, lo que es peor para el amor mismo,
sin esperanzas posibles de renovación?
Así lo sintieron Mazzini y Berta, y
cuando el hijo llegó, a los catorce meses de matrimonio, creyeron cumplida su
felicidad. La criatura creció bella y radiante, hasta que tuvo año y medio.
Pero en el vigésimo mes sacudiéronlo una noche convulsiones terribles, y a la
mañana siguiente no conocía más a sus padres. El médico lo examinó con esa
atención profesional que está visiblemente buscando las causas del mal en las
enfermedades de los padres.
Después de algunos días los miembros
paralizados recobraron el movimiento; pero la inteligencia, el alma, aun el
instinto, se habían ido del todo; había quedado profundamente idiota, baboso,
colgante, muerto para siempre sobre las rodillas de su madre.
—¡Hijo, mi hijo querido! —sollozaba
ésta, sobre aquella espantosa ruina de su primogénito.
El padre, desolado, acompañó al
médico afuera.
—A usted se le puede decir: creo que
es un caso perdido. Podrá mejorar, educarse en todo lo que le permita su
idiotismo, pero no más allá.
—¡Sí!... ¡Sí! —asentía Mazzini—.
Pero dígame: ¿Usted cree que es herencia, que...?
—En cuanto a la herencia paterna, ya
le dije lo que creía cuando vi a su hijo. Respecto a la madre, hay allí un
pulmón que no sopla bien. No veo nada más, pero hay un soplo un poco rudo.
Hágala examinar detenidamente.
Con el alma destrozada de
remordimiento, Mazzini redobló el amor a su hijo, el pequeño idiota que pagaba
los excesos del abuelo. Tuvo asimismo que consolar, sostener sin tregua a
Berta, herida en lo más profundo por aquel fracaso de su joven maternidad.
Como es natural, el matrimonio puso
todo su amor en la esperanza de otro hijo. Nació éste, y su salud y limpidez de
risa reencendieron el porvenir extinguido. Pero a los dieciocho meses las
convulsiones del primogénito se repetían, y al día siguiente el segundo hijo
amanecía idiota.
Esta vez los padres cayeron en honda
desesperación. ¡Luego su sangre, su amor estaban malditos! ¡Su amor, sobre
todo! Veintiocho años él, veintidós ella, y toda su apasionada ternura no
alcanzaba a crear un átomo de vida normal. Ya no pedían más belleza e
inteligencia como en el primogénito; ¡pero un hijo, un hijo como todos!
Del nuevo desastre brotaron nuevas
llamaradas del dolorido amor, un loco anhelo de redimir de una vez para siempre
la santidad de su ternura. Sobrevinieron mellizos, y punto por punto repitióse
el proceso de los dos mayores.
Mas por encima de su inmensa
amargura quedaba a Mazzini y Berta gran compasión por sus cuatro hijos. Hubo
que arrancar del limbo de la más honda animalidad, no ya sus almas, sino el
instinto mismo, abolido. No sabían deglutir, cambiar de sitio, ni aun sentarse.
Aprendieron al fin a caminar, pero chocaban contra todo, por no darse cuenta de
los obstáculos. Cuando los lavaban mugían hasta inyectarse de sangre el rostro.
Animábanse sólo al comer, o cuando veían colores brillantes u oían truenos. Se
reían entonces, echando afuera lengua y ríos de baba, radiantes de frenesí
bestial. Tenían, en cambio, cierta facultad imitativa; pero no se pudo obtener
nada más.
Con los mellizos pareció haber
concluido la aterradora descendencia. Pero pasados tres años desearon de nuevo
ardientemente otro hijo, confiando en que el largo tiempo transcurrido hubiera
aplacado a la fatalidad.
No satisfacían sus esperanzas. Y en
ese ardiente anhelo que se exasperaba en razón de su infructuosidad, se
agriaron. Hasta ese momento cada cual había tomado sobre sí la parte que le
correspondía en la miseria de sus hijos; pero la desesperanza de redención ante
las cuatro bestias que habían nacido de ellos echó afuera esa imperiosa
necesidad de culpar a los otros, que es patrimonio específico de los corazones
inferiores.
Iniciáronse con el cambio de
pronombre: tus hijos. Y como a más del insulto había la insidia, la
atmósfera se cargaba.
—Me parece —díjole una noche
Mazzini, que acababa de entrar y se lavaba las manos—que podrías tener más
limpios a los muchachos.
Berta continuó leyendo como si no
hubiera oído.
—Es la primera vez —repuso al rato—
que te veo inquietarte por el estado de tus hijos.
Mazzini volvió un poco la cara a
ella con una sonrisa forzada:
—De nuestros hijos, ¿me parece?
—Bueno, de nuestros hijos. ¿Te gusta
así? —alzó ella los ojos.
Esta vez Mazzini se expresó
claramente:
—¿Creo que no vas a decir que yo
tenga la culpa, no?
—¡Ah, no! —se sonrió Berta, muy
pálida— ¡pero yo tampoco, supongo!... ¡No faltaba más!... —murmuró.
—¿Qué no faltaba más?
—¡Que si alguien tiene la culpa, no
soy yo, entiéndelo bien! Eso es lo que te quería decir.
Su marido la miró un momento, con
brutal deseo de insultarla.
—¡Dejemos! —articuló, secándose por
fin las manos.
—Como quieras; pero si quieres
decir...
—¡Berta!
—¡Como quieras!
Éste fue el primer choque y le
sucedieron otros. Pero en las inevitables reconciliaciones, sus almas se unían
con doble arrebato y locura por otro hijo.
Nació así una niña. Vivieron dos
años con la angustia a flor de alma, esperando siempre otro desastre. Nada
acaeció, sin embargo, y los padres pusieron en ella toda su complaciencia, que
la pequeña llevaba a los más extremos límites del mimo y la mala crianza.
Si aún en los últimos tiempos Berta
cuidaba siempre de sus hijos, al nacer Bertita olvidóse casi del todo de los
otros. Su solo recuerdo la horrorizaba, como algo atroz que la hubieran
obligado a cometer. A Mazzini, bien que en menor grado, pasábale lo mismo. No
por eso la paz había llegado a sus almas. La menor indisposición de su hija
echaba ahora afuera, con el terror de perderla, los rencores de su descendencia
podrida. Habían acumulado hiel sobrado tiempo para que el vaso no quedara
distendido, y al menor contacto el veneno se vertía afuera. Desde el primer
disgusto emponzoñado habíanse perdido el respeto; y si hay algo a que el hombre
se siente arrastrado con cruel fruición es, cuando ya se comenzó, a humillar
del todo a una persona. Antes se contenían por la mutua falta de éxito; ahora
que éste había llegado, cada cual, atribuyéndolo a sí mismo, sentía mayor la
infamia de los cuatro engendros que el otro habíale forzado a crear.
Con estos sentimientos, no hubo ya
para los cuatro hijos mayores afecto posible. La sirvienta los vestía, les daba
de comer, los acostaba, con visible brutalidad. No los lavaban casi nunca.
Pasaban todo el día sentados frente al cerco, abandonados de toda remota
caricia. De este modo Bertita cumplió cuatro años, y esa noche, resultado de
las golosinas que era a los padres absolutamente imposible negarle, la criatura
tuvo algún escalofrío y fiebre. Y el temor a verla morir o quedar idiota, tornó
a reabrir la eterna llaga.
Hacía tres horas que no hablaban, y
el motivo fue, como casi siempre, los fuertes pasos de Mazzini.
—¡Mi Dios! ¿No puedes caminar más
despacio? ¿Cuántas veces...?
—Bueno, es que me olvido; ¡se acabó!
No lo hago a propósito.
Ella se sonrió, desdeñosa: —¡No, no
te creo tanto!
—Ni yo jamás te hubiera creído tanto
a ti... ¡tisiquilla!
—¡Qué! ¿Qué dijiste?...
—¡Nada!
—¡Sí, te oí algo! Mira: ¡no sé lo
que dijiste; pero te juro que prefiero cualquier cosa a tener un padre como el
que has tenido tú!
Mazzini se puso pálido.
—¡Al fin! —murmuró con los dientes
apretados—. ¡Al fin, víbora, has dicho lo que querías!
—¡Sí, víbora, sí! Pero yo he tenido
padres sanos, ¿oyes?, ¡sanos! ¡Mi padre no ha muerto de delirio! ¡Yo hubiera
tenido hijos como los de todo el mundo! ¡Esos son hijos tuyos, los cuatro
tuyos!
Mazzini explotó a su vez.
—¡Víbora tísica! ¡eso es lo que te
dije, lo que te quiero decir! ¡Pregúntale, pregúntale al médico quién tiene la
mayor culpa de la meningitis de tus hijos: mi padre o tu pulmón picado, víbora!
Continuaron cada vez con mayor
violencia, hasta que un gemido de Bertita selló instantáneamente sus bocas. A
la una de la mañana la ligera indigestión había desaparecido, y como pasa
fatalmente con todos los matrimonios jóvenes que se han amado intensamente una
vez siquiera, la reconciliación llegó, tanto más efusiva cuanto infames fueran
los agravios.
Amaneció un espléndido día, y
mientras Berta se levantaba escupió sangre. Las emociones y mala noche pasada
tenían, sin duda, gran culpa. Mazzini la retuvo abrazada largo rato, y ella
lloró desesperadamente, pero sin que ninguno se atreviera a decir una palabra.
A las diez decidieron salir, después
de almorzar. Como apenas tenían tiempo, ordenaron a la sirvienta que matara una
gallina.
El día radiante había arrancado a
los idiotas de su banco. De modo que mientras la sirvienta degollaba en la
cocina al animal, desangrándolo con parsimonia (Berta había aprendido de su
madre este buen modo de conservar la frescura de la carne), creyó sentir algo
como respiración tras ella. Volvióse, y vio a los cuatro idiotas, con los
hombros pegados uno a otro, mirando estupefactos la operación... Rojo...
rojo...
—¡Señora! Los niños están aquí, en
la cocina.
Berta llegó; no quería que jamás
pisaran allí. ¡Y ni aun en esas horas de pleno perdón, olvido y felicidad
reconquistada, podía evitarse esa horrible visión! Porque, naturalmente, cuando
más intensos eran los raptos de amor a su marido e hija, más irritado era su
humor con los monstruos.
—¡Que salgan, María! ¡Échelos!
¡Échelos, le digo!
Las cuatro pobres bestias,
sacudidas, brutalmente empujadas, fueron a dar a su banco.
Después de almorzar salieron todos.
La sirvienta fue a Buenos Aires y el matrimonio a pasear por las quintas. Al
bajar el sol volvieron; pero Berta quiso saludar un momento a sus vecinas de
enfrente. Su hija escapóse enseguida a casa.
Entretanto los idiotas no se habían
movido en todo el día de su banco. El sol había traspuesto ya el cerco, comenzaba
a hundirse, y ellos continuaban mirando los ladrillos, más inertes que nunca.
De pronto algo se interpuso entre su
mirada y el cerco. Su hermana, cansada de cinco horas paternales, quería
observar por su cuenta. Detenida al pie del cerco, miraba pensativa la cresta.
Quería trepar, eso no ofrecía duda. Al fin decidióse por una silla desfondada,
pero aun no alcanzaba. Recurrió entonces a un cajón de kerosene, y su instinto
topográfico hízole colocar vertical el mueble, con lo cual triunfó.
Los cuatro idiotas, la mirada
indiferente, vieron cómo su hermana lograba pacientemente dominar el
equilibrio, y cómo en puntas de pie apoyaba la garganta sobre la cresta del
cerco, entre sus manos tirantes. Viéronla mirar a todos lados, y buscar apoyo
con el pie para alzarse más.
Pero la mirada de los idiotas se
había animado; una misma luz insistente estaba fija en sus pupilas. No
apartaban los ojos de su hermana mientras creciente sensación de gula bestial
iba cambiando cada línea de sus rostros. Lentamente avanzaron hacia el cerco.
La pequeña, que habiendo logrado calzar el pie iba ya a montar a horcajadas y a
caerse del otro lado, seguramente sintióse cogida de la pierna. Debajo de ella,
los ocho ojos clavados en los suyos le dieron miedo.
—¡Soltáme! ¡Déjame! —gritó
sacudiendo la pierna. Pero fue atraída.
—¡Mamá! ¡Ay, mamá! ¡Mamá, papá!
—lloró imperiosamente. Trató aún de sujetarse del borde, pero sintióse
arrancada y cayó.
—Mamá, ¡ay! Ma. . . —No pudo gritar
más. Uno de ellos le apretó el cuello, apartando los bucles como si fueran
plumas, y los otros la arrastraron de una sola pierna hasta la cocina, donde
esa mañana se había desangrado a la gallina, bien sujeta, arrancándole la vida
segundo por segundo.
Mazzini, en la casa de enfrente,
creyó oír la voz de su hija.
—Me parece que te llama—le dijo a
Berta.
Prestaron oído, inquietos, pero no
oyeron más. Con todo, un momento después se despidieron, y mientras Berta iba
dejar su sombrero, Mazzini avanzó en el patio.
—¡Bertita!
Nadie respondió.
—¡Bertita! —alzó más la voz, ya
alterada.
Y el silencio fue tan fúnebre para
su corazón siempre aterrado, que la espalda se le heló de horrible
presentimiento.
—¡Mi hija, mi hija! —corrió ya
desesperado hacia el fondo. Pero al pasar frente a la cocina vio en el piso un
mar de sangre. Empujó violentamente la puerta entornada, y lanzó un grito de
horror.
Berta, que ya se había lanzado
corriendo a su vez al oír el angustioso llamado del padre, oyó el grito y
respondió con otro. Pero al precipitarse en la cocina, Mazzini, lívido como la
muerte, se interpuso, conteniéndola:
—¡No entres! ¡No entres!
Berta alcanzó a ver el piso inundado
de sangre. Sólo pudo echar sus brazos sobre la cabeza y hundirse a lo largo de
él con un ronco suspiro.
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* Horacio Quiroga, escritor uruguaio (1878-1937)
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