segunda-feira, 22 de abril de 2013

Jorge Amado como a locomotiva das relações literárias russo-brasileiras


Elena Beliakova
Ao estudar todo o corpo de traduções da literatura brasileira para o russo, podemos chegar à conclusão de que a história de percepção da literatura brasileira pelos russos divide-se precisamente em 3 períodos: período pré-amadiano, período de Jorge Amado e o pós-amadiano.
O primeiro período durou desde 1826 até 1947, porém, em 120 anos, foram traduzidas somente 15 obras de autores brasileiros. A maioria dos leitores russos ainda não imaginava que a literatura brasileira existia.
A segunda etapa nas relações literárias entre nossos países foi determinada por completo pelas obras e atividades políticas de Amado. Essa etapa teve início em 1948, quando foi publicada a primeira tradução de Jorge Amado para a língua russa (São Jorge dos Ilhéus), e terminou em 1991, com a mudança radical da política editorial na ocasião da derrocada da união Soviética. Em 33 anos os leitores russos conheceram a obra de 132 escritores brasileiros: prosaicos, poetas e dramaturgos. Nesse período, foram editados 68 livros de autores brasileiros, desses 8 antologias em prosa e versos, obras reunidas de contos, crônicas e lendas (sem considerar os livros de Amado). Foram traduzidas todas as obras mais significativas tanto de clássicos como de contemporâneos que contribuíram com o desenvolvimento da literatura brasileira. Nesse período, os leitores russos podiam julgar os autores brasileiros não por trechos e alguns contos, mas por romances traduzidos na íntegra, coletâneas de contos, antologias poéticas. Os autores mais destacados foram apresentados por algumas grandes obras. Isso se refere aos clássicos, fundadores da literatura brasileira, como aos contemporâneos: José de Alencar, Aloísio Azevedo, Castro Alves, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, José Lins do Rego e muitos outros. O aumento do interesse pela literatura brasileira pode ser explicado só pelos esforços de Jorge Amado. Ele divulgou ativamente a obra de autores brasileiros (principalmente de companheiros de partido, de escritores comunistas); levou escritores brasileiros a URSS como membros de delegações, indicou livros de seus amigos aos tradutores e, finalmente, escreveu prefácios para livros. O resultado foi a publicação de traduções em russo de quase todos os autores brasileiros. Nenhum livro saía na época sem a benção de Jorge Amado. Caso o prefácio não fosse escrito por ele, havia obrigatoriamente menção a sua opinião. Na época soviética todo o sistema editorial encontrava-se sob o controle rígido do partido e para os funcionários do partido a indicação de Amado era a garantia ideológica por um autor desconhecido na União Soviética. Para o tradutor ou redator interessado na publicação de algum autor bastava trazer um parecer positivo de Amado para receber a permissão para edição do livro. Mas, muito frequentemente, as referências a Amado eram necessárias para atrair a atenção do leitor. Para a massa de leitores soviéticos os nomes dos autores brasileiros mais famosos não diziam absolutamente nada. O único escritor brasileiro amplamente conhecido em nosso país era e permanece Jorge Amado. Para todos os receptores da literatura brasileira: tradutores, pesquisadores, leitores – Jorge Amado é uma certa pedra angular, o fundamento sobre o qual está a literatura brasileira.
E como se sabe que todas as traduções de literatura soviética nos anos 40-50 eram feitas pela editora Paz dirigida por Amado, podemos afirmar que Jorge foi a locomotiva verdadeira das relações literárias entre nossos países.
O terceiro período, pós-amadiano, que teve início com a derrocada da União Soviética estende-se até os dias de hoje. Junto com o país desmoronou também o sistema estatal de publicação de livros. As velhas editoras estatais desapareceram, caíram as tiragens (se na União Soviética a tiragem de 500 mil exemplares era um fenômeno comum, agora 5 mil é uma boa tiragem), decaiu a cultura de publicação de livros, e finalmente, moveu-se em 180 graus a estrutura ideológica: o comunismo foi proibido. Tudo isso podia não refletir-se nas traduções de autores brasileiros para a língua russa.
Jorge Amado deixou de ser persona grata. Claro que os livros de Amado são editados, pois os leitores russos não deixaram de lê-los, mas para a publicação são escolhidas as obras menos ideológicas Dona Flor, Tereza Batista, Sumiço da Santa. Tantas obras como O Cavaleiro da Esperança ou Subterrâneos da Liberdade são expulsos dos planos editoriais.
Infelizmente o outro escritor brasileiro é mais desejado pelos editores; e este escritor é Paulo Coelho. A tiragem dos livros dele já superou a de Jorge Amado.
Mas na verdade o único valor de Coelho é que ele é do país de Jorge Amado.
são jorge dos ilheus5

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